Júlio Isidro emocionado com o prémio que recebeu

   

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11164810_10203301490092830_7585128758069627387_nO seu programa das tardes de domingo na RTP Memória, o “Inesquecível”, venceu o prémio de melhor programa de informação cultural da revista TV7 Dias, por isso mesmo, Júlio Isidro escreveu um longo texto, onde revela um pouco de si e da sua vida profissional de sucesso:

“O QUE MAIS ME IRÁ ACONTECER?
«Ontem recebi o troféu TV7Dias 2014 para o melhor programa de informação cultural. Foi no Casino Estoril no decorrer da Gala Anual dos prémios de televisão atribuídos por esta revista.

Pulei da cadeira, subi ao palco como para as nuvens, e de troféu na mão, disse um pouco do muito que sentia. Como sei o que é ritmo de um espectáculo resumi com algum humor a importância deste prémio para mim, neste momento, nesta televisão, neste país.

Permito-me agora confidenciar-vos um pouco do que não disse.

Com duas vitrinas em casa cheias de galardões e memórias, este troféu representa um testemunho daqueles que sabiam que eu sabia o que valia. Um forma do público me dizer que ainda vale a pena continuar e que os nossos laços de ternura, respeito e solidariedade se mantêm.

Era a quarta vez que o Inesquecível estava nomeado pelo júri . A nomeação representava para mim um sopro de alento para continuar a fazer o programa com o rigor com que sempre foi feito, para algumas dezenas de milhares de espectadores da RTP Memória, ou com mais um dígito no Canal 1 de onde estive arredado quase quatro anos.

-“Este seu Inesquecível devia era passar era no 1″ ” O seu programa fala de pessoas que mais gente devia conhecer” ” É bom, mas nós não temos cabo” – era a vox populi enquanto eu, tal Leonor “posto em sossego” ia escrevendo uma espécie de Enciclopédia das Artes e Espectáculos, programa a programa, semana a semana. Até agora mais de 400 convidados e muitas horas de pesquisa por parte da Sandra com a minha edição dos clips e sempre com a colaboração do arquivo e do departamento de edição da RTP.

Sempre tentei fazer do entretenimento televisivo um acto de cultura, ou pelo menos de oposição à incultura. Do Passeio dos Alegres à Outra Face da Lua o primado do serviço público esteve sempre presente na minha actuação.

Naqueles minutos de podium, lembrei-me que vivi a minha “fase Trotsky” apagado da história da RTP, dos 50 anos de carreira que não comemorei na empresa onde nasci e irei morrer, dos programas de televisão e de rádio que me foram retirados pelo telefone, das reuniões que não consegui ter e dos passos solitários para o estúdio onde continuava a acontecer o Inesquecível. Quando era abordado na rua e me diziam “então já está reformado” sorria e desmentia com um calor que me gelava a alma.

E fico por aqui porque parece que foi o Inesquecível e o Canal Memória que me mantiveram a sobrevivência profissional. Agradeço a quem ali me colocou até chegarem melhores dias.
E chegaram. De repente, fiz anos e numa entrevista pelo telefone para o “Agora nós”,pedi como prenda um lugar de estacionamento nos parques da RTP e um programa no Canal1.

Depois fiz 55 anos de carreira e tive uma festa de dia inteiro de manhã, à tarde e à noite com a passagem de uma biografia que eu já pensava só vir a ser exibida no dia em que eu viesse a ser notícia de rodapé no Telejornal.
Os dois programas que me acolheram, bateram recordes de audiência e outros beneficiaram por arrastamento.
E fui convidado para apresentar o Festival da Canção que correu bem.
De súbito, numa manhã de chuva sou chamado pelo ainda director de programas, a fazer o Agora Nós com 1 hora de antecedência !
Fui buscar às minhas gavetas o meu arsenal de experiências e fui considerado “herói”. Claro que não fui, não sou, mas foi preciso ser substituto para talvez vir a ser efectivo.
Como há sempre uma primeira vez, a Administração da RTP contactou-me de imediato para me agradecer o voluntariado.
Fiz agora a locução da Gala da BBC dedicada aos 60 anos do Euro Festival e espero continuar a fazer os comentários do concerto de Ano Novo de Viena de Áustria como acontece há três anos.
Persisti, insisti, trabalhei muito neste últimos quatro anos, para provar a mim próprio que a auto estima é a última coisa a perder, para fazer da humildade a minha resistência passiva, o meu lado Gandhi, e saber esperar de forma activa por esta fase que desejo seja a última.

Estou muito feliz e em condições de sair um dia deste oficio pela porta grande, porque apagada e vil tristeza, não quero que seja o meu destino.
No vendaval de emoções que um prémio como o que recebi ontem me arrastou, decidi, sabe-se lá porquê, adaptar os últimos versos do poeta Bocage, quando no leito de morte disse “Já Bocage não sou”.

Fi-lo para que todos entendam que estas lutas não são nada comparativamente com os verdadeiros problemas da Humanidade. Programas de televisão, fotos, fama, dinheiro, poder e pequenas conspirações, não valem nada.
Bocage terminou dizendo “Ó se me creste gente ímpia, rasga meus versos, crê na eternidade”

Eu que ainda tenho muito coração para bater, adaptei “Ó se me viste gente amiga, apaga os meus programas e crê na humanidade”.

É tudo tão pouco importante face ao mistério da nossa existência.
Um beijo à Sandra um amor que está para além do tempo, à Mariana, à Francisca e a todos aqueles que apenas e só através da minha voz e imagem me elegeram como amigo de longa data.”»

One response to “Júlio Isidro emocionado com o prémio que recebeu”

  1. Avatar de Ricardo carvalho
    Ricardo carvalho

    Para mim será sempre o melhor, com mais carácter e seriedade. Um profissional de televisão sem igual.

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