Entrevista a Jorge Silva: o vencedor do “Quem Quer Ser Milionário?”

FOTO: JN
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Sérgio Silva tem 36 anos, está desempregado, vive com 178 euros por mês, cuida do primo autista e da mãe, que está doente e num lar. Conheça o homem que, mesmo sem estudos, acaba de ganhar 10 mil euros no “Quem quer ser milionário”.

“Sem cunha, não se consegue nada”

Nessa pergunta estava muito indeciso, mas também muito calmo, como se estivesse em casa. Antes de entrar no estúdio é que estava numa pilha de nervos. Bebia água, bebia café, estava completamente nervoso.

Preparou-se de alguma forma?

Andei a jogar dois jogos de perguntas no Facebook, duas ou três vezes por dia, para ganhar aquele treino de reflexo rápido.

O que já comprou com os 10 mil euros?

Roupa, sapatos e um computador. Para o meu primo, comprei um BluRay, para ele ver DVD que gosta e um órgão sintetizador. Paguei dívidas antigas, comprei comida e livros – fiz a coleção toda do José Rodrigues dos Santos!

Quantas propostas de emprego já teve desde que ganhou o concurso?

Duas. Ainda ontem me ligaram para fazer traduções, mas era a recibos verdes, pagavam 4 cêntimos por palavra e não ficava com os créditos. Daqui a pouco, vou a uma entrevista na Padaria Portuguesa.

Lembra-se do seu primeiro emprego?

Foi numa tipografia, em 2002. Fazia os cartões de visita e as matrizes. Também já estive na Pizza Hut e estive para trabalhar na PT e no Minipreço, mas por questões de saúde acabei por recusar.

Desistiu dos estudos depois de ter sido atropelado por uma mota. Arrepende-se?

Hoje em dia, sim, mas se não fosse a lista de espera das operações, talvez tivesse começado o 10.º ano de raiz ou estudado à noite.

Mas fala fluentemente Inglês, Francês, Espanhol… Via-se a emigrar para algum destes países para poder viver melhor?

Se estivesse sozinho, emigrava. Mas tenho de tomar conta do miúdo e tenho a minha mãe num lar. Gostava de ir, se estivesse sozinho, mas para um país com uma comunidade portuguesa razoável, como o Luxemburgo ou os Estados Unidos.

Vive com o seu primo autista e cuida também da sua mãe. É um dia a dia exaustivo?

Bastante. Cuido do miúdo, tomo a minha medicação – porque tenho uma doença rara, chamada neurofibromatose tipo 1, que pode provocar convulsões -, à tarde vou ver a minha mãe e depois, quando volto, preparo os tupperwares para ir buscar a comida às carrinhas. Há dias em que chego à meia-noite a casa, completamente estoirado. Muitas vezes, a comida está estragada e tenho de ir ao supermercado mais perto para fazer umas batatas fritas, para não ficar a olhar para o prato vazio.

Calculo que já tenha passado fome…

Sim… Nos primeiros tempos, antes de saber das carrinhas, vivia de enlatados e do que me davam os vizinhos.

Foi tudo isso que o impediu de formar a sua própria família?

Sim. Se tivesse emprego estável e uma casa, podia ter criado família. Gostaria de ser pai, a minha irmã até diz que tenho jeito, mas desempregado e sem casa, é impossível.

Qual o pior momento dos últimos anos?

Foram dois de seguida: a morte da minha avó e ter ficado sem casa. Em 2007, o solicitador da casa onde eu estava disse mesmo “Estava à espera que a velha morresse para resolver o assunto”. A minha avó tinha morrido em setembro e, quando faltava uma semana para o Natal, meteram-nos na rua.

Em termos de planos para o futuro, será arranjar emprego, mudar de casa…

As primeiras coisas são deixar de estar dependente do subsídio e pagar a renda do meu bolso, pôr essa dor de cabeça de lado. Depois, conforme as respostas que tenha das entrevistas, se tiver um contrato a tempo certo, fico no quarto, se conseguir um contrato efetivo, aí já vou procurar casa e já tenho outra tranquilidade. Posso até conseguir conciliar com um curso na Universidade Aberta.

Que conselhos dá a pessoas que, também por não terem concluído os estudos, são colocadas de parte pela sociedade?

Não desistam, vão à luta. Se essas pessoas não aparecem, ninguém lhes liga. Quem está aflito tem é de procurar visibilidade, porque sem uma cunha, não se consegue nada.

Entrevista de Carolina Morais – Jornalista JN