Maria José Valério quebra o silêncio: "O Mundo agora não me diz nada"

Fadista está ainda a recuperar da queda que sofreu

Maria José Valério está, neste momento, a viver na Casa do Artista, tal como a VOX POP TV avançou em primeira-mão, para recuperar da queda que sofreu em casa.

Em declarações à revista TV7 Dias, a fadista conta que está a recuperar com a ajuda da Casa do Artista antyes de regressar à sua casa: “É uma casa que tem todas as condições para que uma pessoa possa voltar em pleno para a sua casa. Tenho muitos amigos na Santa Casa, mas também tenho o meu cantinho, que é a minha casa. Temos as nossas manias e a nossa casa é sempre a nossa casa. Tenho feito tudo o que é possível fazer para uma recuperação boa, já consigo andar e já me sinto mais forte”, conta

Este Natal e a Passagem-de-Ano não foi de grandes festejos para Maria José Valério: “Na passagem do Ano, às 23 horas já estava deitada a ver programas na televisão. O Mundo agora não me diz nada. Eu pensava que as coisas iam melhorar de uns anos para os outros, mas conforme vamos envelhecendo vamos ficando com a ideia de que as pessoas não são aquilo que desejaríamos que fossem”, disse em jeito de desabafo

Maria José Valério: “ficou quase 48 horas para ser acudida. A polícia encontrou-a no chão”

Drama

A revelação foi feita, recentemente, pelo jornalista Luís Osório que, num texto escrito a 20 de novembro, abordou a solidão em que vivem os mais velhos.

Leia agora, na íntegra, o texto escrito por Luís Osório:

“POSTAL DO DIA

Carta aos nossos avós e pais
(a propósito de Maria José Valério)

1.
Já não tenho os meus avós. Também não tenho os meus pais. Estou por minha conta, mas não estamos todos?

Pensei em escrever esta espécie de carta quando soube que Maria José Valério, a cantora que deu voz ao hino do Sporting, ficou quase 48 horas para ser acudida da sua solidão. A polícia encontrou-a no chão, imobilizada por uma queda, em agonia.

2.
É interessante e grotesco o paradoxo. Esta é uma sociedade que inventa novos léxicos, palavras que substituem os velhos por seniores, mas que continua a não resolver o problema aos que, no final da vida, têm o azar de ficar dependentes.

3.
O mundo é tão rápido, não é? É necessário produzir, ser útil, consumir. As crianças estão nos infantários, os jovens nos telemóveis, os adultos no trabalho e muitos dos nossos velhos ficam sozinhos, mortos antes da morte numa espera angustiada.

4.
Espera pelos filhos, espera pela visita dos netos, espera pela hora de ir à farmácia, espera pelo fim do mês para levantar a reforma, espera por uma consulta, espera que alguém lhes pergunte “olá, como vai?” ou de serem abraçadas ou abraçados.

5.
Muitos vão às consultas apenas para terem onde ir. Para estarem. Para ter um propósito nessa manhã. O dia da doença é um dia feliz por lhes ser permitido falarem e serem ouvidos. Mesmo que seja por 10 minutos.

6.
Esta é uma sociedade manchada pela culpa. Os filhos muitas vezes não encontram tempo para um telefonema que seja. Ou então perdem a cabeça e gritam ou resmungam ou condenam a relação ao silêncio. Depois quando os seus velhos morrem têm de gerir o seu sentimento de culpa. Sei o que é isso.

7.
Maria José Valério foi encontrada com vida. Mas muitos, todos os anos, são encontrados sem vida. Encontrados porque alguém sente um cheiro esquisito. Isto envergonha-nos. Envergonha-me.

8.
Porque sabem… não há nenhum dia em que não sinta a falta das minhas avós. A Joaquina, que comia num tacho, e a Alice que jantava em pratos de porcelana. Não há um único dia em que não me apeteça telefonar-lhes. E não há um único dia em que não pense que falhei.

Porque sabem… se têm avós (e pais) é agora que vale a pena perguntarem, dizerem, estarem. Depois é tarde… Amanhã já poderá ser demasiadamente tarde. Vão por mim.

LO” – escreveu

NA FOTO: Luís Osório