Última Hora: Júlio Isidro reage à morte de Nini Remartinez: “Morreu a minha namorada”

Reprodução facebook/Júlio Isidro

Morreu Nini Remartinez! A cantora vivia há vários anos na Casa do Artista. Tinha 104 anos de idade.

Júlio Isisro, apresentador da RTP, deixou, nas redes sociais, uma longa e emotiva despedida em forma escrita onde recorda a amiga:

“NINI FOI AO ENCONTRO DO MAR

Chamavam-lhe Nini não sei se vestiu de organdi mas era tecido do seu tempo.

A época da Nini foi sempre o dia de hoje, quando a caminho dos 105 anos de idade, a mais antiga, a única sobrevivente dos tempos gloriosos da rádio, nos disse adeus.

Nasceu Maria Carolina Remartinez Quilez de Matos de Freitas França, mas convenhamos que o diminutivo era mais ternurento e adaptável à altura da dona.

Sempre foi pequenina no corpo e enorme na alegria de viver.Dizia de si própria que era azougada e até maluca para a época, mas o que palpitava naquele peito era um coração cheio de amor pela música e espectáculo.

Também se dizia tímida, mas é dos tímidos que saem as grandes figuras das artes.

A Nini cresceu , o possível no pouco mais de metro e meio, e aprendeu piano e violoncelo herdando da família até à terceira geração, o culto dos sons.

Amava o mar e perdia-se pelo prazer de cavalgar as ondas só não tendo feito surf porque ainda não se usava.Lá de fora chegavam às nossas telefonias as harmonias vocais das Andrew Sisters fardadas da tropa a cantarem para os soldados na 2ª Grande Guerra.

Cá dentro alguém pensou:- E porque não?Foi o maestro António Melo ( lembram-se dele a dar “boa nôte” aos estimados telespectadores no Museu de Cinema da António Lopes Ribeiro?) que desafiou Nini e a irmã Fernanda a formarem um duo feminino.

Lá em casa as duas ouviam os discos na grafonola, para tirarem as músicas e as letras da canções das Andrew Sisters enquanto preparavam afanosamente o guarda roupa para a estreia, tudo artesanato caseiro.

Foi na Rádio peninsular que em 1941 se estreou a primeira “Girl band” portuguesa.

Que sucesso a cantarem o “Vira viradinho” o “Quem casa não pensa” e até canções da América latina como “Farolito” e “Cielito lindo”.Depois foram contratadas pela Emissora nacional onde fizeram programas como “Horas de fantasia” “Ouvindo as Estrelas” e os “Serões para trabalhadores”.

Ganhavam bem, 300 escudos por programa, digamos que um euro e cinquenta.

Fizeram amizade e cantaram com Milú a criadora da “Minha casinha” que os Xutos e Pontapés recuperaram, Maria da Graça a “brasileira” do filme o Pátio das cantigas onde cantava a “Camisa Amarela” e as famosas irmãs Meireles.

Entretanto casaram e a possibilidade de carreira internacional acabou porque eles, repito eles, não deixavam.

Estamos a falar da primeira metade do século XX, embora a Nini reafirmasse: – Não estou nada arrependida de não viajar para o estrangeiro por causa do meu amor.

Até hoje sabia de cor quanto tempo esteve casada e quantos bons partidos recusou porque só ele lhe tocou e mais ninguém.O duo acabou com a morte da irmã. Na carreira a solo a Nini venceu o prémio de cançonetista no concurso de artistas ligeiros. Entrou para o coro feminino da Emissora Nacional e terminou a carreira no arquivo discográfico.

Também foi eleita Miss Aeronáutica e até me prometeu oferecer-me o alfinete de peito com as asas que ganhou numa noite memorável.A Nini tinha uma notável memória do passado, mas de tudo, só lamenta não poder voltar a sentir as ondas do mar no corpo.Viveu feliz na Casa do Artista, aprendeu a navegar na internet e no facebook, ia aos espectáculos onde a levavam e encantava-se com a vida.

Dizia que um dia se vai esquecer de respirar e então partirá para os braços do seu eterno mais que tudo.Aconteceu hoje, Nini Remartinez que gostava que eu lhe chamasse namorada porque a Sandra não era ciumenta, foi ver o mar.Vejo-a de mão dada com o seu único mais que tudo, a acenar trémula para os seus muitos amigos.No jantar de Natal do próximo ano, se Deus quiser, lá estarei na casa do artista mas o lugar da Nini vai estar vago.Das ondas da rádio às do mar , navega agora na nossa saudade.A mais antiga cançonetista portuguesa, menina da primeira girl band, Irmãs Remartinez, morreu! Perdi a minha namorada…..”, escreveu Júlio Isidro

Este foi o seu maior êxito musical:

Um entrevista com Nini Remartinez, conduzida por Nuno Fortes:

Nini Remartinez na Casa do Artista num vídeo onde fala da sua vida:

Aos 90 anos de idade, depois das cantigas e de viver intensamente o mundo da rádio, Nini Remartinez aprendeu a mexer num computador e a navegar pela a internet.

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