José Rodrigues dos Santos quebra silêncio

Durante o dia de hoje, o jornalista da RTP foi vítima de uma frase que proferiu numa entrevista, e que foi utilizada fora do contexto por várias pessoas para tecerem duras críticas ao pivot da estação pública.

Perante isto, José Rodrigues dos Santos acaba de ter de recorrer às redes sociais,. pela quais estalou a polémica, para esclarecer e repor a verdade:

Meus caros,

Não tenho por hábito frequentar as redes sociais. Aliás, nem sequer sei entrar nelas. As únicas páginas que tenho são as do Facebook, esta portuguesa gerida pela Gradiva e outra francesa gerida pela HC Editions.

Chamaram-me, no entanto, a atenção para uma polémica disparatada que segundo me disseram foi desencadeada no Twitter por um tweet em que as minhas palavras aparecem absurdamente distorcidas. Como é habitual, tal tweet rapidamente degenerou numa corrente de ódio carregada de bullying e insultos.

Parece-me que se impõem duas recomendações e um esclarecimento, especificamente para os intervenientes que não alimentaram esse discurso de ódio.

A primeira recomendação é que, antes de mais nada, se deve ver a entrevista na íntegra.É fácil, podem encontrá-la aqui: https://www.rtp.pt/play/p6646/e507120/grande-entrevista

A segunda é que, para saberem exatamente o que eu penso sobre o Holocausto, devem ler os dois volumes da obra em causa na íntegra.É fácil, podem encontrá-los em qualquer livraria ou biblioteca.

Agora o esclarecimento.

Do que me foi dado a entender, a minha frase que apareceu no Twitter foi esta: “A certa altura há alguém que diz – Eh, pá, estão nos guetos, estão a morrer de fome, não podemos alimentá-los. Se é para morrer, mais vale morrer de uma forma mais humana. E porque não com gás?”

Esta frase levou o Carlos Vaz Marques, pessoa que respeito, a tecer o seguinte comentário irónico: “As câmaras de gás ou de como os nazis foram afinal bonzinhos e humanitários em Auschwitz”. E logo a seguir mais este: “Transformar o Holocausto, mesmo a tentar explicar que não havia plano prévio, numa decisão humanitária exige capacidade ficcional”.

A mesma frase, ao que parece, levou o escritor João Pinto Coelho, apoiado pela historiadora Irene Pimentel, a escrever o seguinte sobre mim: “Não vai encontrar nenhum académico respeitado que alegue razões humanitárias para justificar os gaseamentos”.

O problema destes comentários é que eles ignoram um facto evidente para qualquer pessoa de boa fé que veja toda a entrevista e que leia os dois volumes da minha obra na íntegra: em momento algum eu defendi que os gaseamentos eram humanitários.

Mais ridículo do que eu sustentar tal absurdo é haver pelos vistos pessoas que têm suficiente falta de bom senso para achar que eu penso tal coisa.

O que eu expliquei, e que julgo que é claro para qualquer pessoa que sem preconceitos e estereótipos me oiça e leia, é que os nazis invocaram razões humanitárias para o extermínio, o que é bem diferente. Quando eu digo “A certa altura há alguém que diz – Eh, pá, estão nos guetos, estão a morrer de fome, não podemos alimentá-los. Se é para morrer, mais vale morrer de uma forma mais humana. E porque não com gás?”, estou apenas a citar de improviso o raciocínio dos nacional-socialistas, não o meu.

Esse raciocínio está plasmado no primeiro documento nazi existente a preconizar explicitamente o extermínio dos judeus. Esse documento foi enviado de Poznan a Adolf Eichmann a 16 de julho de 1941 pelo oficial SS Rolf Hoppner, e consultei-o na sua tradução para inglês: “Existe este inverno o perigo de não se conseguir alimentar todos os judeus. Dever-se-ia considerar seriamente se não seria uma solução mais humana eliminar os judeus (dispose of the Jews), designadamente os que não conseguem trabalhar, através de um agente de morte rápida (quick-acting agent). Seria melhor do que deixá-los morrer à fome.”

Quando Hannah Arendt, em Eichmann in Jerusalem, falou na banalização do mal, não se referia necessariamente ao conceito de que o mal se tornou banal mas à ideia de que o mal era perpetrado por pessoas banais. Muitos sobreviventes do Holocausto disseram a mesma coisa. Os SS que estavam nos campos não eram necessariamente psicopatas (embora também os houvesse), mas pessoas normais. Como é possível que pessoas normais aceitassem envolver-se em ações de extermínio? Essa é a grande questão, o grande mistério suscitado por Arendt e que tantas pesquisas alimentou até no ramo da psicologia.

Sem invalidar outras explicações, a solução, parece-me a mim, é dada por Aleksandr Solzhenitsyn no seu O Arquipélago de Gulag, o livro que lhe valeu o Prémio Nobel e que fala do complexo concentracionário comunista na União Soviética com base na sua experiência pessoal e na de duzentos outros sobreviventes. A obra aborda extensivamente as matanças em massa que decorriam nesses campos, a fome, as torturas e a escravização de milhões de pessoas (muitas delas detidas por sistemas de quotas), para Solzhenitsyn chegar a esta conclusão (que significativamente faz a epígrafe de O Manuscrito de Birkenau): “Para fazer o mal, a primeira coisa necessária é acreditar-se que se está a fazer o bem”.

Essa é, na minha opinião, a resposta para o mistério suscitado por Arendt sobre o facto de o Holocausto ter sido cometido por gente banal: os nacional-socialistas acreditavam que estavam a fazer um mal provisório em prol de um bem maior algures no futuro. Uma escatologia messiânica. Faziam o genocídio em segredo, pois tinham a noção de estar a fazer o mal, mas acreditavam que o bem final os absolveria desse mal, pelo que estavam a ser “decentes” sobre “uma página de glória” que “jamais será escrita”. Para o perceber basta ver o discurso de Himmler em Poznan em 1943, disponível no site do Yad Vashem em inglês e por mim traduzido: “Quero também falar aqui convosco, com toda a abertura, sobre um capítulo realmente grave. Entre nós, de uma vez, temos de falar abertamente, mas ao mesmo tempo nunca falaremos sobre isto em público. Da mesma maneira que não hesitámos a 30 de junho de 1934 em cumprir o nosso dever quando recebemos ordens e encostámos à parede camaradas nossos que erraram e os fuzilámos, e nunca falámos sobre isso nem nunca falaremos. É uma questão de tato natural que vive entre nós, graças a Deus, nunca termos falado sobre isso entre nós, de nunca o termos discutido. Cada um de nós tremeu e no entanto cada um sabia claramente que da próxima vez o faríamos de novo se recebêssemos tal ordem e se ela fosse necessária. Estou a referir-me aqui à evacuação dos judeus, ao extermínio do povo judeu. Isto é uma das coisas que se dizem facilmente: “o povo judeu tem de ser exterminado”, é o que qualquer membro do Partido diz, “claro, está no nosso programa, a eliminação dos judeus, o extermínio – será feito”. E depois vêm eles todos, os 80 milhões de alemães, e cada um apresenta-nos o seu judeu decente. Claro que todos os outros são uns suínos, mas este aqui é um judeu impecável. De todos os que falam assim, ninguém viu a coisa acontecer, ninguém teve de passar por isto. A maior parte de vós sabe o que é ver cem corpos lado a lado, ou quinhentos, ou mil. Termos aguentado isto – e exceto em casos de fraqueza humana – termo-nos mantido decentes tornou-nos mais duros. Esta é uma página de glória da nossa história que não foi escrita nem jamais será escrita”

O genocídio era pois, na perspetiva dos nacional-socialistas (será ainda preciso sublinhar isto?) um mal necessário para que houvesse um bem superior. E que bem superior era esse? A criação do Ubermensch, o super-homem, um homem com poderes demiúrgicos que resgataria a humanidade das trevas. Aqui entramos nas ideias esotéricas do nacional-socialismo (tema de O Mágico de Auschwitz e O Manuscrito de Birkenau), entroncadas com as ideias racistas e eugénicas.

As lendas e mitos germânicos e conceitos ocultistas da teosofia, antroposofia e ariosofia desempenharam o seu papel ao gerar um racismo bizarro, assente até no sobrenatural. Os nazis inspiraram-se em teorias extravagantes dos movimentos ocultistas da época para reivindicarem, com absoluta sinceridade, que os alemães eram um povo divino porque descendiam dos sobreviventes de Thule, ou Atlântida, eles próprios de origem divina, e que tinham sofrido alguma degeneração por se terem cruzado com povos de pele escura, considerados demónicos. Haveria assim uma luta entre a Luz, representada pelos loiros arianos de origem divina, e as Trevas, cujos soldados eram os povos escuros luciferianos, em particular os judeus. O grande projeto racial dos nazis passava por retomar a pureza da raça alemã, de modo a recuperar a sua natureza divina e assim resgatar a humanidade das trevas, e isso requeria eliminar as raças demoníacas, sobretudo a judaica.

Estas ideias esotéricas eram sobretudo perfilhadas por Himmler e Hess, embora fossem igualmente abraçadas por outros líderes nacional-socialistas, incluindo Hitler, que no Mein Kampf afirmou, numa declaração com aparentes tonalidades místicas, que a política racial permitiria aos alemães “atingir esferas que se situam para lá da Terra”, pois o ariano é “o Prometeu da humanidade” e “se fosse forçado a desaparecer uma profunda treva abater-se-ia sobre a Terra; em poucos milhares de anos a cultura humana extinguir-se-ia e o mundo transformar-se-ia num deserto”. Este esoterismo racista levou mesmo o ex-nazi Hermann Rauschning a escrever que Hitler tinha a “convicção de que o homem existe num qualquer tipo de associação mágica com o universo” e alegadamente a definir o nacional-socialismo como “socialismo mágico”, posição também sustentada por Thomas Mann. “As tendências fascistas”, escreveu o grande escritor alemão, “estão impregnadas de magia.”

Eu sei que tudo isto é bizarro e suscita estranheza. Porém, faz parte da História, das origens intelectuais do nacional-socialismo, da sua ideologia – e do tema da minha obra. Escolhi este tema justamente por o misticismo nazi ser largamente desconhecido do grande público e entendo que a ficção serve para tocar em temas tabu ou menos conhecidos. Não quer isto dizer que o nacional-socialismo e a Shoah se reduzissem ao misticismo (como os autores do discurso do ódio certamente se apressariam a clamar se eu não fizesse esta ressalva). Estou apenas a dizer que o misticismo desempenhou um papel na ideologia nazi e no Holocausto.

Quanto ao resto… meus amigos, leiam O Mágico de Auschwitz e O Manuscrito de Birkenau. “Penso que apenas devíamos ler livros que nos mordem e que nos perfuram”, recomendou Kafka. “Se o livro que estamos a ler não nos abala e desperta como uma marretada no crânio, para quê lê-lo?”

José Rodrigues dos Santos

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26 thoughts on “José Rodrigues dos Santos quebra silêncio

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  1. A inveja é a falta de respeito pelo outro é monstruosa. Se não conseguimos atingir o nível, o sucesso, a notoriedade dos outros arrasamos, envenenamos… José Rodrigues dos Santos, para além de excelente jornalista, é um dos melhores escritores portugueses da atualidade. As suas obras têm sempre alguma verdade histórica. Não esqueçam, dos mais lidos no estrangeiro. São raros os escritores portugueses que são lidos como ele lá fora. A filha do capitão, para mim dos livros mais belos que já li. E antes que ataquem, já li muito. Boas festas a todos… muita saúde

  2. Procurem documentos , leiam, intrepretem e depois comentem. Se por acaso não souberem entender o que se escreve, sejam modestos e fiquem calados, não se armem em intlectuais pois estes comentários em desabono de JRS vem de gentalha que nem uma pesquisa sabe fazer e nem uma frase em português sabe escrever. Mordem-se porque não têm um milésimo da capacidade de escrita e comunicação desse grande Sr. JRS.

  3. Impressionante o palavreado… Basta dizer que se arrependeu do que disse, ao invés de argumentar extensivamente para justificar-se. Isso sim, denota que está de acordo com os nazistas e a sua forma de agir. Chego ao final e continuo com a impressão que compactua com esses criminosos. E até os justifica! Que vergonha “pá”!

    1. Se chegas ao final com essa impressão a única coisa que demonstra é que a interpretar texto és um 0 à esquerda. Mete mais tabaco nisso

    2. E CLARO PARA SE LIMPAR ESTE MENTECAPTO JOSÉ RODRIGUES TINHA QUE VIR COMOS GOULAGS. NÃO SE LIMPA COM POERIRA!!

  4. Bom dia
    Estou agora a meio do primeiro, O Mágico de Auschwitz, e estou a gostar bastante. Noto que a escrita de JRS está a tornar-se mais fluida e a perder aquele “sotaque” jornalístico, que o fazia andar depressa, eventualmente demais, perdendo-se alguns pormenores. É agora um dos meus escritores preferidos. Quanto aos insultos que lhe remetem, nem comento, não têm razão de ser. De resto têm sempre acesso, se quiserem, aos documentos originais. Obrigado.

  5. Não leio muito mas admiro este senhor e como ele bem dis gente com bom senso sabe que jamais diria tais palavras grande homem e senhor.

  6. Saber ler não se resume apenas a juntar letras. Saber ouvir também é saber compreender o que se ouve.

  7. Sou muito franco não gosto nada dos livros mão do diabo e sinal de vida penso que os tenho todos os outros tou a seis mil klm de distância e penso em receber estes dois últimos dentro de dias para mim o melhor escritor Português

  8. Não ligues à mediocridade dessa gente, José Rodrigues dos Santos. Tudo isso não passa de inveja.

  9. Vao todos a merda… Cosam meias lavem roupa suja em casa badalhocos… Quem dera a essa gentinha ter a caytgoria do nosso pivo Jose Rodrigues dos Santos wue tem uma dicçao e disciplina exemplar ao nosar as notiçias no telejornel… Cambada de hipocritas vao bugiar.

    1. Gente burra vão passear macacos podem ser k eles vos ensine alguma coisa ! Gente burra mesmo ! E não vale a pena dizer mais nada O JOSÉ RODRIGUES DOS SANTOS é uma pessoa culta e profissional ok !

  10. Eu penso que isto será mais uma publicidade para vender mais uns livros,mas a verdade é que esse senhor tem um jeito estranho para algumas intervenções televisivas, da- nos a impressão de alguma superioridade, quando anuncia fá-lo como que esteja a fazê-lo com a ideia de dizer é bem feito,eu bem tinha dito,é só ver como anuncia os positivos o mortos pelo dito vírus.

  11. A frase conforme foi dita e o tom leviano não são desculpáveis perante a dimensão do horror causado pelos Nazis. As palavras são armas e têm de ser melhor escolhidas, especialmente ao falar do Holocausto. Devia no mínimo pedir desculpa por isso.

    1. O senhor José Rodrigues dos Santos apenas escreveu um livro, não ofendeu ninguém nem está a idolatrar o ideal nazi. Escreveu um livro! Quantos escritores retratam realidades horríveis? Este foi mais um acontecimento infeliz e José Rodrigues dos Santos decidiu fazer um livro com esta temática, vai pedir desculpa por ter escrito um livro com uma boa história?

  12. Deveria ter sido bem mais cauteloso na abordagem do tema.
    Além disso, mais uma vez o silêncio cai sobre todas as outras vítimas do nazismo: opositores políticos, Testemunhas de Jeová, padres , ciganos,…
    E nada há que explique a intenção de Hitler assassinar 80% da população polaca e escravizar os restantes 20%.

  13. Não tenho palavras, foi muito infeliz na abordagem que fez do tema, mesmo sendo um trabalho de jornalismo de história, a espressão “hé pá” dá a impressão afinal somos uns ‘gajos” porreiros “pá”

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