Dina Júlio Isidro Social

Júlio Isidro escreve texto sobre Dina (1956-2019)

Júlio Isidro homenageia Dina

É através de um longo texto que o apresentador da RTP se despede da cantora Dina que morreu na noite de quinta-feira.

Leia agora o texto na íntegra::

QUANDO NA HORA DA PARTIDA ,CHEGAM AS MEMÓRIAS.
Os tributos, os elogios, os lenços a acenar, as palmas tardias e as lágrimas até.
E porque não tudo isso quando se está cá ?

A Dina saiu de cena muito antes do dia em que morreu porque o esquecimento é uma forma de morte.

Brava, corajosa,foi dizendo que não ao mal que lhe tirava o ar até à rendição final. E a sua música está agora no ar para ficar ou o silêncio é já depois de amanhã?

Haverá sempre entre mim e a Dina, uma ligação feita de música e sorrisos.Grandes músicas e sorrisos abertos no palco do cinema Nimas onde acontecia essa aventura radiofónica que se chamou Febre de Sábado de Manhã.

Casa a abarrotar de pessoal da pesada, a ser apresentado a uma tal Dina pequenina no corpo e enorme na energia, que arrebatou com o seu “Pássaro louco”.

Mas antes deste começo tinha havido outro. A Dina a cantar letras do Júlio Isidro com músicas do João Henrique para o meu programa infanto-juvenil Arte & Manhas.
E antes , ainda antes, a cantar no Fungagá da Bicharada na sua terceira edição.
Por isso há e haverá sempre, “Música entre nós”.
Vale a pena viajar no tempo de outras músicas e outras rádios para recordar o coro de dependentes da Febre com a Dina gigantesca, de viola na mão a reger: – Não chores não, acorda a voz, cantaremos até o dia nascer!

Era uma inspirada compositora, na pop rock ou em baladas que ainda hoje embalam.
Fica “Guardado em mim” o festival de 80 que para ela foi só oito, tal o lugar em que se quedou a canção. Mas depois, e como acontece tantas vezes com as perdedoras nos votos, veio o sucesso em disco e por tantos palcos.

A Dina passava da doçura do “Gosto do teu gosto” para a explosão do seu “Dinamite” num acorde da guitarra, levando consigo um público que lhe tinha carinho.
Foram anos a escrever cantigas e a mostrá-las em disco ou concertos, construindo um património que vale a pena ouvir em estreia, ou rebobinar e recordar, para se lhe atribuir o valor que se foi perdendo na voragem do preconceito e dos chamados novos tempos.

A Dina no Festival da Canção de 1992 ofereceu-nos um “Amor de água fresca”, letra com cheiro e sabor de amor saudável, numa parceria com Rosa Lobato Faria.
Para além do prémio e da fama que arde e queima sem se ver, a canção recebeu a compensação mais ambicionada por quem está nestas artes.

A Dina no Festival da Canção de 1992 ofereceu-nos um “Amor de água fresca”, letra com cheiro e sabor de amor saudável, numa parceria com Rosa Lobato Faria.
Para além do prémio e da fama que arde e queima sem se ver, a canção recebeu a compensação mais ambicionada por quem está nestas artes.

Tantos anos depois, há jovens a cantar o : – Vem cá tenho sede, quero o teu amor de água fresca. Peguei, trinquei e meti-te na cesta”- gente que nem sabe quem foi a Dina mas que lhe conhece os acordes.

Dar lugar aos novos, para quem como ela se renovava em cada canção, foi mais uma vez o pretexto moralista e consumista para o seu apagamento da cena num gesto tão comum entre nós. Com estes e tantos outros actos de auto-mutilação, se vão desfazendo traços da nossa cultura popular.

A doença lenta mas inexorável, foi-lhe tirando o ar, mas não a vontade de continuar a escrever canções.

Anos depois, há jovens a cantar o : – Vem cá tenho sede, quero o teu amor de água fresca. Peguei, trinquei e meti-te na cesta”- gente que nem sabe quem foi a Dina mas que lhe conhece os acordes.
Dar lugar aos novos, para quem como ela se renovava em cada canção, foi mais uma vez o pretexto moralista e consumista para o seu apagamento da cena num gesto tão comum entre nós. Com estes e tantos outros actos de auto-mutilação, se vão desfazendo traços da nossa cultura popular.

A doença lenta mas inexorável, foi-lhe tirando o ar, mas não a vontade de continuar a escrever canções.

Estão guardadas na sua casa , agora vazia, mas espera-se que um dia surjam num álbum do tributo que ela merece.

A Dina despediu-se em termos de televisão num encontro que valeu por uma vida, no Inesquecível da RTP Memória. Foi em 2016, dias antes de dois espectáculos para cair o pano, onde participaram jovens músicos que a descobriram e à sua música.. Ainda cantou discretamente assim como quem diz adeus baixinho

A notícia da sua partida também me tirou o ar do peito.
Mais um sensação de vazio, mais um página de vida a menos.

Agora recordo-a a sorrir e em dueto com Carlos Paião em 1988, na canção “Quando as nuvens chorarem”.

Nesta canção, o Carlos preconizava o dia, sempre igual e inevitável para todos, do reencontro :- Não chores, se o tempo não ri. Ficarei a teu lado, esperando por ti.”

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