Fátima Campos Ferreira escreve texto sobre General Loureiro dos Santos

 

voxpoptvfcfls.png

General Loureiro dos Santos (1936-2018)

A jornalista da estação pública escreveu um longo texto onde conta histórias da convivência com o General.

 «Ei-los que partem!…

Meão de altura, boné a proteger a cabeça, olho vivo e de sorriso fácil, o” Meu General”, como carinhosamente o trato há décadas, passa despercebido ao homem comum. Faz parte da reserva moral e pensante do País, mesmo que o País não o saiba. Os seus primeiros comentários na televisão despertavam a atenção do meu Pai. Conceitos novos, a colocar a geopolica militar em primeiro plano. Quis o destino que, mais tarde, primeiro no Telejornal e depois no Jornal 2 nos viéssemos a cruzar em entrevistas, e , depois, colóquios, apresentações de livros, conferências e até viagens e visitas a quartéis militares. Ele general quatro estrelas, eu profissional da comunicação. Apresentávamos as palestras e testemunhei bem o respeito profundo que lhe dedicavam no corpo militar. De tudo isto e muito mais, nasceu uma das mais profundas e belas amizades da minha vida. Foi meu amigo e conselheiro. Estivemos juntos no bom e no mau, e intuíamos bem mais do que contávamos um ao outro. Partilhámos mesa sozinhos e com amigos, e sorvemos cada refeição com a alegria de viver. O “Meu General” tinha um gato, o Che. O Che Guevara, era ciumento. À noite se prolongássemos mais a conversa ao telefone, o Che saltava-lhe para os joelhos e fincava as unhas até magoar. O Che, tornara-se um companheiro de viagem. Ao sábado, se viesse almoçar connosco, tinha que voltar a meio da tarde, porque o gato estava à espera . O gato do “Meu General” tinha emoções fortes, era uma espécie de ajudante de campo a requerer presença constante.
No que me diz respeito,sempre que me chamava eu também ia. E sempre que lhe pedi, ele veio. Um dia, já depois do 11 de Setembro, desafiou-me a apresentar a obra:” O império debaixo de fogo. Ofensiva contra a ordem internacional unipolar”. Foi no Instituto de Altos Estudos Militares. Entre militares, governo e académicos. Tal era a responsabilidade que me recordo de tudo, até de dizer… boa tarde! O facto é que as suas obras concitaram sempre o consenso da intelectualidade nacional.
Nos últimos anos, até ao acidente, tornámo-nos mais palavrosos. E há dois momentos que posso contar.
Durante o processo de organização da homenagem ao General Ramalho Eanes, organização de que fazíamos parte, o Meu General disse me que Eanes decidira não estar presente. Não queria homenagens. Inconsolável pressionei , mesmo achando que não valia a pena, pediu- se uma audiência ao General Eanes. Fomos os dois. Eanes repetiu o que já tinha dito. Ouvimos, e eu , depois de respeitar e aceitar, disse-lhe que não era ele que precisava da homenagem. O País é que necessita de referências e exemplos. Sorriu pouco crente e ficou de pensar. Já era um passo. Saímos e fomos os dois almoçar a uma pequena confeitaria. Como sempre falámos do País, de valores , condutas de vida, do curso da História depois do 25 de abril, e de Eanes como uma espécie de guia ético, quase espiritual. “O meu general” tinha por ele uma admiração profunda. Pela integridade e pela dádiva á Pátria e aos portugueses. Quando pegou no lenço para limpar as lágrimas que já corriam só de o referir, perguntei -lhe se pudesse voltar atrás e escolher o perfil , entre todos os que conheceu, para liderar o País, qual seria? “O Eanes ,sem dúvida era o mais completo de todos nós”!
Na fase final da organização da dita homenagem, debatia-se a Comunicação da mesma. Éramos uns dez, numa mesa grande, alguns militares, jornalistas, académicos, outros empresários. Todos cheios de opiniões. Dispara daqui, dali …e, de repente, soa uma voz alta e forte, e um rosto de poucos amigos que se impõe. Tudo se calou. Situação acalmada eu disse em voz audível… “ena…tinha me esquecido que o Meu General é mesmo um líder!” …fez um sorriso não muito aberto, e continuou. Só mais tarde, muito depois , lembrámos o momento com uma boa gargalhada. E como ele achava graça á minha observação. A meu ver o País deve reconhecê- lo em três características essenciais: Integridade, Liderança e Sabedoria.
Eu, depois da morte dos meus pais com quinze dias de diferença, dor a que decidi poupá-lo, bem como a um episódio de doença pessoal, fico com todas elas e mais uma:
– Amigo, “Irmã mais nova” …como me chegou a chamar!» – escreveu Fátima Campos Ferreira

Anúncios

Deixa o teu comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s