Percival homenageia Marcelo Rezende

Percival com texto emocionante

Companheiro de Marcelo Rezende no programa “Cidade Alerta”, Percival escreveu um texto de homenagem ao seu colega e amigo:

“Por Percival de Souza

Marcelo foi-se embora. Uma partida que a gente esperava, mas quando a morte prossegue na sua ceifa, a nossa fragilidade humana explode ao extremo. A partida não tinha hora marcada, nem dia, nem nada. Mas viria. Eu sabia. Marcelo também.

Por que sei disso? Porque abandonou a quimioterapia, determinada por um oncologista (amigo dele) no Einstein. Submeteu-se a apenas duas sessões. Os efeitos no organismo são devastadores. Ele não quis saber mais. Desde então, passamos a nos comunicar por mensagens. E ele me disse: “não acredito mais na medicina dos homens”.

A frase diz tudo. Sua opção não me convenceu, dentro de um raciocínio pragmático, diferentemente dele, abraçado a uma esperança que depende das convicções de cada um. Eu não concordava, mas confesso que não tive a coragem necessária para pronunciar certas palavras. Como sua linguagem, dali em diante, foi centrada exclusivamente em Deus, fé e esperança, passei — dia sim, dia não — a nutri-lo com doses de esperança espiritualizadas, centradas nas Escrituras Sagradas.

Antes do diagnóstico irreversível ele demonstrava muito interesse em aprofundar-se no conhecimento do Eterno. Cheguei a emprestar-lhe uma Bíblia de estudos, excelente para detalhamento de origens e elaboração de capítulos e versículos. Sofri com isto, porque todos sabem que entre nós havia um vínculo forte capaz de transpor certas blindagens — então, comecei a receber dezenas de conselhos, orientações, receitas, pedidos, fórmulas, indicações. Muito disso foi feito pessoalmente. Muito por cartas. Várias eram tão carinhosas, tão afetivas, que eu fazia questão, comovido, de respondê-las agradecido, de próprio punho.

É muita gente para agradecer: preces, orações, pensamentos, conforto, ânimo. As mais fortes em conteúdo, eu informava a ele, entremeadas com minhas mensagens. Ele respondia: “meu irmão amado”, “meu irmão querido”, e mesmo nessa situação insistia na brincadeira de dizer que minha esposa, Yeda, era sua “tia”, que ela havia sido “emprestada” e eu estava “devendo o aluguel”. Quando os dois se encontravam ela o xingava, de brincadeira, ele, também brincando, dizia que ela não precisava “falar palavrão”.

Nas ruas, as pessoas que o encontravam reclamavam que ele exagerava nas brincadeiras comigo. E Marcelo retrucava: “mas é ele quem judia de mim”. Este era o Marcelo-personagem, por trás das câmeras solidário das mais variadas formas, como tantas vezes testemunhei.

Fora do estúdio, Marcelo era uma coisa. Lá dentro, outra. Dois Marcelos num só. Sua personalidade, enigmática para alguns, precisava ser decifrada. Como nossa amizade era fruto de uma convivência além de três décadas, aprendi a compreendê-lo, mesmo em momentos de explosões emocionais. Davam a impressão de que ele estivesse fora de controle.

Aqui, o enigma: no ar, ele assumia por inteiro a dosagem da velocidade e do pique no programa, como se ele fosse editado ao vivo, criando sufoco e estresse em toda a equipe. Comigo, no ar, valendo-se de episódios que eu já lhe explicara, fazia perguntas embaraçosas e desconectadas, que eu não poderia responder, para dizer – no ar – que eu “não sabia nada”. Que eu tinha contratado alguém para escrever meus dezoito livros. Depois, me dava uma piscada, como se fôssemos cúmplices. De certo modo éramos porque aos poucos o Cidade Alerta foi se transformado num produto muito além de um telejornal: informação, interpretação, descontração.

Assim, mesmo rude algumas vezes, era mostrado o lado Marcelo-leveza do ser. Outro que aprendeu a dominá-lo, digamos assim, foi nosso amigo (e diretor) Leandro Cipoloni. Marcelo em seus momentos esbravejantes, era ignorado por Leandro. Por isso, ele, numa espécie de “vingança”, batizou de “Cipoloni” um dos personagens que ele criou para o programa. Como, por exemplo, o cão “Barra Funda” (que miava diante do perigo), “Maloy” – uma viatura policial que se comunicava pelo acender dos faróis (sempre “respondendo” que “nunca sentia saudades de mim”) –  por sinal, ele me transformou, de igual modo, em personagem, um gato que saltava, piscando, antes do início de um a matéria.

Era assim o irreverente Marcelo, que me transformou também num “milionário”, dono de iates, helicópteros, carrões e mansões. O pior (para mim) é que muita gente, certa disso, vive me pedindo dinheiro.

Marcelo é legado, memória sem fim, registro histórico da realidade contemporânea. Bordões inesquecíveis: “Corta pra mim”, “Sapeca Iaiá”, “Sururu na casa de Noca”, “Eu sei porque eu estava lá”. Sobre este último uma recordação inesquecível: ele fazia a chamada de uma matéria que contava histórias sobre um bordel. Automaticamente, ele deu início à frase: “Sabe por que eu sei?” Acenei para ele com gestos desesperados. E ele emendou rapidamente: “sei porque me contaram”.

Nos quatro últimos meses, porém, não falamos sobre nada disso. Nossos temas eram existenciais, filosofias de vida. Chegamos a pensar em viajar juntos para Jerusalém. Não deu tempo. Descobri a sua preferência pelo Salmo 23 (“O Senhor é meu pastor, nada me faltará”) e admiração pelas epístolas do apóstolo Paulo. Mantivemos diálogos teológicos, mais uma novidade entre nós dois. Só nossa. Minhas preces o acompanharam na passagem.

Desculpe. Não consigo continuar. Estou empenhado, agora, em juntar retalhos. Costurando-os um por um, com fatos marcantes ou para alguns insignificantes. Mas muito importantes para mim. Corta: dá muita emoção para escrever. Preciso construir uma colcha que me proteja na noite fria da saudade.”

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