José Fragoso: “A administração da RTP não devia ser ocupada por produtores de televisão”

José Fragoso, a Entrevista

O ex-director da RTP, SIC e TVI quebrou o silêncio após vários anos sem dar uma entrevista, José Fragoso fala de tudo, sem medo nem tabus. A entrevista foi dada ao semanário SOL.

“Acha normal o atual administrador de conteúdos da RTP ter uma empresa que fornece serviços à estação do Estado?

Não sei se as coisas são assim, mas não me lembro é de nenhum produtor de televisão ser administrador da RTP. Acho que os administradores da RTP, agora são três, não deviam estar ligados aos conteúdos. A administração da RTP não devia ser ocupada por produtores de televisão. Aos olhos de outros produtores e da população não faz sentido. A administração da RTP deve ser ocupada por pessoas com perfil cultural, com uma visão de Portugal no mundo, que tenha uma perspetiva do que deve ser a RTP daqui a cinco anos. Quando saí da RTP em cada três portugueses havia um a ver um canal da RTP. Hoje em dia é de um para dez. A RTP  perdeu muita relevância ao longo dos últimos anos, desde que Miguel Relvas e Passos Coelho tiveram a ideia de privatizar um dos canais.

 

Mas porquê?

Porque acabou por não acontecer e a RTP tentou fazer uma adaptação tentando meter num canal a programação dos dois. Isso obrigou a um recomeçar e nunca mais se acertou o passo. A verdade é que a RTP perdeu relevância na sociedade portuguesa e são cada vezes menos os que falam dela, o que não acontecia há 10 anos. A RTP corre o risco de perder toda e qualquer relevância.

 

Como é que foi passar para a TVI, que era conhecida como a casa do Big Brother?

Eu já tinha passado pela SIC e RTP. A TVI era a única televisão onde eu não tinha trabalhado. Na RTP tinha-se começado a desenhar a ideia de vender um canal. Senti na altura que se fechava ali um ciclo. Tinha um convite da TVI, aceitei. Eu já vinha da área da programação, fiquei a conhecer uma outra empresa com uma dinâmica diferente. É a televisão líder em Portugal há muitos anos, com uma grande competência no trabalho que faz, com profissionais muito focados. O nosso trabalho altera-se não pelas empresas onde trabalhamos mas pela conjuntura. Quando eu passo para a TVI é quando o mercado publicitário começa a cair vertiginosamente em Portugal, depois de 2011-2012. Começamos a ter quebras nas receitas muito significativas. O nosso quadro de funcionamento altera-se. Em vez de nos focarmos nos conteúdos, passamos a ter que nos focar na gestão e isso é um processo muito diferente. No fundo, passávamos metade do dia a pensar na gestão e depois dedicávamos algum tempo à parte dos conteúdos. E foi essa experiência que acabou por se tornar cansativa para mim. Há uma altura em que já não faz nenhum sentido passar mais tempo a pensar em temas de gestão de recursos, de custos, de orçamento, do que no que se vai fazer no programa A ou no programa B. Isso é que mudou a minha perspectiva e fez com que na altura saísse e fosse depois trabalhar noutros projectos. Mas acho que, dos projectos onde trabalhei, a TVI é a televisão mais preparada, mais adaptada ao público português, com maior agilidade no mercado de televisão em Portugal.

Como é que passa do mundo da informação pura e dura para a televisão do Big Brother? Nem quero entrar pelo mais nobre ou menos nobre…

Às vezes fazemos coisas mais nobres em sítios considerados menos nobres e coisas menos nobres em sítios considerados mais nobres.

Mas como se adapta a essa situação? Via o Big Brother?

Via. Eu estava na SIC quando aparece o Big Brother, que é um dos momentos de viragem da televisão em Portugal, como é público. Quando entro na TVI entro na plena montagem de um dos Big Brothers. E foi um projecto muito interessante de conhecer por dentro. É um formato com capacidade de antena muito forte.

 

Em miúdo alguma vez foi à Feira Popular?

Sim, algumas vezes.

Lembra-se daquelas pessoas que vendiam panelas e cobertores?

Sim (risos).

E com esse discurso não se sente um pouco isso?

Não, não, não. Estive ligado a dois Big Brothers, enquanto estive na TVI. O Big Brother era um grande programa de entretenimento. Os jornalistas quando olham para a televisão têm a tendência a achar que a televisão é informação. A televisão tem uma hora de informação ao almoço e outra hora ao jantar. O resto é entretenimento puro. Nós achamos que as pessoas passam os dias a ver televisão mas a verdade é que nem metade dos portugueses estão a ver televisão à noite. Há sempre metade, ou mais de metade, que está a fazer outras coisas. A análise que se faz da televisão do lado de fora é muito pouco ligada à realidade dos factos. Hoje em dia a televisão é apenas um dos múltiplos momentos de entretenimento.

As suas filhas viam os Big Brothers?

Quando lhes apetecia.

Incentivava-as a ver?

Incentivar, não. Mas não desincentivava. Viram alguns, uma vez por outra. As minhas filhas vêem pouca televisão, como a maioria das pessoas mais novas faz  hoje em dia. Olham para a televisão como um objecto que serve para jogar, para ver vídeos, o Youtube, e depois de vez em quando ver um programa. Lembro-me do primeiro Big Brother onde estive, que foi muitíssimo divertido. Não teve nenhuma parte agreste. Eu trouxe o The Voice para Portugal, trouxe o Masterchef para Portugal quando estava na RTP. Passaram seis ou sete anos e continuam a ser dois formatos fantásticos, com grande impacto no público. São formatos de entretenimento e as pessoas olham essencialmente para a televisão como entretenimento. Agora às vezes há abusos, até situações que fogem ao controlo. E essas devem ser evitadas.

 

Foi uma espécie de jogador invisível que ocupou os cargos mais importantes da comunicação social em Portugal. E depois abandonou a TVI por razões de saúde. Foi uma depressão por causa de ter que despedir pessoas? Por causa das audiências estarem a baixar? O que é que foi?

Não chegou a ser uma depressão. Eu na altura estava muito cansado. Fiquei para aí três noites seguidas sem conseguir dormir. Estávamos numa fase de orçamentação. O trabalho, como eu já disse, era já muito mais virado para as contas, a poupança, o custo, e já muito desviado das questões de conteúdos, que foi o que me fez mudar para a TVI. Entre o momento em que entrei na TVI e o momento em que saí passaram-se também muitas coisas. A conjuntura mudou bastante.

Foi muito pressionado na altura? Politicamente?

Politicamente nada. A pressão era relacionada, como continua a ser, com as economias que é preciso fazer, do permanente corte de custos de produção, da performance que é preciso ter em termos de resultados do lado da gestão…

Lembro-me de uma antiga directora da Impresa que se despediu a seguir a ter despedido 200 pessoas do Grupo Impresa e nunca mais foi a mesma pessoa. Foi isso que o deitou abaixo?

Não, até porque eu nunca tive que despedir pessoas. Tivemos que reduzir alguns salários mais altos, entre os quais os nossos próprios salários…

Na altura ganhava 30 mil euros, era o que se dizia…

Não ganhava nem metade disso. Eu nunca tive de despedir uma pessoa diretamente. Uma coisa é acabar com um programa, e isso fiz várias vezes, o que implica, quando se está a trabalhar com produtores externos,  um grande problema do outro lado.

Mas qual foi o problema de saúde que, segundo as notícias da época, o levaram a abandonar a TVI?

Andei a acumular cansaço e depois não conseguia dormir pura e simplesmente. Depois concluí que o trabalho iria ser sempre o mesmo – e que o foco estava a deixar de ser os conteúdos e cada vez mais a gestão de custos. Quando já estava em condições de voltar achei que não devia voltar. Ia voltar para fazer a mesma coisa, para ter o mesmo tipo de cansaço. Parti para outra.

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