Serenella Andrade: “Senti-me na prateleira”

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Serenella Andrade: “O meu pai faz-me muita falta”

Foi com as emoções à flor da pele que Serenella Andrade revelou o que sente desde que o pai morreu, o antigo diretor da RTP, Luiz Andrade. Fica a entrevista emocionada da apresentadora.

Uma Entrevista de Débora Godinho – Jornalista Cofina | IN, Flash

Foi numa conversa intimista que Serenella Andrade, de 54 ano de idade, abriu o coração e revelou ao site FLASH! as saudades que sente do seu pai, o antigo diretor da RTP, Luiz Andrade, e como ainda hoje fala com ele, anos após a sua morte. Serenella sente-se revoltada por não se ter despedido do pai em vida, mas acredita que isso foi um golpe do destino.

Apaixonada pela profissão, a apresentadora da RTP revela que já se sentiu na “prateleira” e que achou injusto os cortes salariais de que foi alvo. Fica a entrevista emotiva e sem assuntos proibidos.

 

A Serenella é filha, irmã, esposa, mãe e jornalista. Qual é o trabalho mais complicado no meio disto tudo?


O mais difícil é gerir tudo, mas sou uma grande gestora. Gosto de abraçar muitos projetos. E, para além de estar muito ligada à minha profissão, na RTP, o mais importante para mim é a família e não tenho sequer dúvidas do que está em primeiro lugar. Em segundo lugar está a profissão e depois gosto dos amigos e também estou ligada a outro projeto, que não tem nada a ver com televisão. Sou uma das sócias fundadoras dos intérpretes portugueses de conferência.

Porquê abraçar esse projeto?


Nasci com duas línguas, o italiano e o português e achei que era bom para mim utilizar as línguas em trabalho. Gosto de sair, ir para a praia e de estar no meu espaço, pois eu sou muito caseira, principalmente de inverno. Quando me convidam para alguma coisa, parece que arranjo sempre alguma desculpa. Tento fazer com que as minhas 24 horas sejam bem dividias e bem utilizadas.

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Tem três filhos já adultos (Miguel, Bernardo e Sofia). Dão-lhe muito trabalho?


Nunca me deram trabalho. Tenho imensa sorte (risos). Nós também criamos a nossa sorte. Eles nunca me deram trabalho. Quando eles eram adolescentes e as mães todas me diziam: “Ai Serenella os nossos filhos estão na adolescência. E agora?”. E eu respondia logo que os meus não davam trabalho nenhum, porque sempre me acompanharam muito e, tanto eu como o meu marido, sempre os acompanhámos muito.

Levava-os consigo quando ia trabalhar?


Mesmo no trabalho, sempre que podia eles iam comigo, e o meu marido ficava a tomar conta deles. Nós também somos daquelas pessoas que quando eles saem ou saiam, o meu marido telefonava ou mandava mensagem para ir buscá-los. Tê-los como adultos é muito bom, porque eles são muito responsáveis, são ótimas pessoas e o que mais quero é que tenham saúde e sorte. Porque ser-se mãe é uma coisa para a vida inteira. Se pudesse tinha tido uns 5 ou 6 filhos.

E não teve mais porquê?


Porque fiz 3 cesarianas e, normalmente, os médicos não aconselham que se façam mais de 3. E a minha médica, que eu adoro, a dra. Helena Ferreira, estava sempre preocupada que eu ficasse grávida ou tivesse mais filhos. E eu dizia-lhe sempre que gostava de ter tido três pares de gémeos e assim ficava logo despachada.

Alguma gravidez foi mais complicada?


A gravidez nem sempre corre bem. Eu tive duas que correram bem, mas na gravidez do meio tive que descansar. Tive que estar em repouso, mas continuei a trabalhar. Lembro-me perfeitamente que nessa altura apresentava ‘A Casa Cheia’, tive o apoio de toda a equipa e eu ia de carro até ao Casino Estoril. Levava uns sapatos rasos e quando entrava no palco calçava os altos, depois paravam e eu ia para trás da bancada onde me esperavam uns sapatos baixos e eu apresentava o programa todo com aqueles sapatos confortáveis e só no final calçava de novo os sapatos altos. Tudo fazia diferença. No resto da semana descansava até que tudo ficou normalizado e pude ter uma gravidez normal.

Essa gravidez mais atribulada, não fez com que deixasse de querer ter mais filhos?


Não, até porque tive outra filha. Tanto que na terceira gravidez não tive qualquer problema. Às vezes, são apenas deficiências de vitaminas. Há pequenas coisas que fazem as coisas não correrem bem, mas felizmente o meu filho está cá, mas acho que há avisos. E isso fez com que eu percebesse, que para mim o mais importante são os meus filhos. Quando somos muito novos, queremos abraçar a nossa profissão e fazer este mundo e o outro. E, nesse momento, eu percebi que havia qualquer coisa mais importante e que tinha que gerir as coisas de outra forma.

Perdeu trabalhos por causa disso?


Tentei fazer tudo o que me foi proposto, mas também deixei muitos convites que acabei por não aceitar, porque teria que estar longe da minha família e dos meus filhos.

Dos três filhos, qual é o mais parecido com a mãe?


Todos eles tem um bocadinho de mim. O mais velho uma vez disse-me que eu era o lado colorido da vida. E isso é importante, porque diz que quando está ao pé de mim se sente bem disposto. Ele é uma pessoa que está sempre disposta a ajudar, é muito sensível e eu também. O do meio faz-me lembrar o meu pai (Luiz Andrade), pois é muito organizado. A Sofia tem uma forte personalidade como eu. Tenho um ótimo feitio, por isso, as pessoas não se apercebem tanto, da minha teimosia. Eu faço sempre o que quero e quando as pessoas insistem muito, a uma certa altura digo que sim, mas depois não faço nada daquilo. Acho que cada um deles tem um bocadinho de mim. Cada um tem que ser educado à sua maneira, porque são todos diferentes, por isso, não tem que ter a mesma educação nem ser tratados da mesma forma.

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Está casada há 30 anos…


Quase. Namorei com o meu marido [José Carlos Antunes] desde os 19 anos. Mas sim, sou casada quase há 30 anos, mas já o conheço há mais.

Como é que se mantém um casamento tão estável durante tanto tempo?


Primeiro temos que estar apaixonados. E nós estamos permanentemente apaixonados, namoramos sempre. Temos cada um o seu feitio e em algumas coisas somos totalmente o oposto, mas noutras coisas temos parecenças. Ele é uma pessoa muito direta e que diz tudo aquilo que pensa, às vezes, até de uma forma repentina. Eu sou uma pessoa direta mas que tento sempre dizer as coisas de uma forma muito educada para não ferir. Aprendi com ele que, às vezes, é preciso dizer não de uma forma mais enérgica, e ele aprendeu comigo que tem que ser um bocadinho mais contido. Mas temos que estar apaixonados e ter coisas em comum. Gostamos de viajar, de estar com amigos e com a família e gostamos muito de praia. E depois há coisas em que somos opostos.

Ainda hoje fazem programas de namorados?


Sempre. Namorar é importante.

Tem medo de envelhecer?


Não tenho medo de envelhecer por causa das rugas. Tenho pena de envelhecer porque vou perder as pessoas que estão cá e que me são muito queridas. Já perdi o meu pai e, espero que daqui a muito tempo, a minha mãe também deixará de existir e os meus tios… Por isso, tenho pena que o tempo passe tão depressa. As rugas não me fazem confusão.

Não lhe passa pela cabeça fazer uma plástica?


Não. Do pescoço para baixo talvez, para ver se fico mais magrinha (risos).

Perdeu o seu pai há quatro anos. Tem medo de um dia também deixar os seus filhos sozinhos?


Não penso tanto em mim. Espero desaparecer no dia em que já não lhes faça falta, porque acho que ainda faço. Gostaria de ver os meus netos, muitos. Não tenho medo de morrer, tenho medo da forma como posso morrer. Tenho medo do sofrimento, preferia saber que um dia, muito tarde e muito velhinha, iria adormecer e ficaria ali. O sofrimento causa-me medo.

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Mas o seu pai sofreu?


Teve um AVC, mas acabou por não morrer disso. Saiu do hospital, apanhou uma pneumonia e teve que regressar ao hospital, mas infelizmente acabou por morrer de uma forma que nós não esperávamos, acabou por se engasgar. Depois teve outros problemas que o levaram a uma paragem cardíaca e acabou por falecer. Quando há um AVC fica-se paralisado de um lado, mas o meu pai felizmente estava bem e a fazer fisioterapia e acabou por morrer quando nós já não estávamos à espera. O meu pai fez-me muita falta e continua a fazer. Tenho uma fotografia dele, na minha sala, que me foi oferecida pelo Luís Aleluia, onde o meu pai está com ele e com o Malato. É uma fotografia muito feliz. O meu pai viveu muito bem a sua vida e todos os dias faço questão de estar a olhar para ele e de falar com ele. Não sei se me ouve ou não, mas sinto falta daquele telefonema. Ele era o meu público, eu sabia que aquilo que ele me dissesse estava sempre certo.

Como foram vividos esses momentos entre o AVC e a morte do seu pai?


Foi muito complicado. No dia em que ele teve o AVC eu ia fazer uma tarde inteira de directo e tive mesmo que ir, porque só eu é que estava preparada para poder fazer. Assim que cheguei fui logo vê-lo. Num segundo, pode tudo acabar e a pessoa ficar outra. O AVC dele foi ligeiro, continuou a conhecer-nos, mas o lado esquerdo ficou ligeiramente apanhado, e teve que fazer fisioterapia. Mas eu tinha muita esperança que ele recuperasse e que ficasse tudo bem. Isto foi em Fevereiro e ele morreu em Abril, durou apenas um mês e dez dias. Mas eu imaginava-o de verão a passear comigo no jardim, pois nunca pensei que ele fosse desaparecer por uma coisa tão simples como ter-se engasgado.

Como é que se recebe essa notícia?


Ele estava bem, mesmo, e no dia seguinte, eu tinha acabado de chegar a Constância quando meu irmão Hugo me ligou e disse que o meu pai tinha sido novamente internado e estava nos cuidados intensivos. Novamente não podia sair dali, estava em direto e regressei no dia seguinte. Quando estava a sair de casa para o ir visitar, o meu outro irmão liga-me e diz-me que o pai partiu. Não o vi mais vivo. Fui para o hospital e fui vê-lo, ele estava com um ar muito sereno. Eu quis estar ao pé dele e falei-lhe como se ele me estivesse a ouvir. Pedi-lhe para ele me proteger sempre e olhar por mim.

Não conseguiu despedir-se?


Despedi-me ali.

Qual tinha sido a última vez que falou com ele?


Tinha falado com ele dois dias antes. Ele estava ótimo, falamos de tudo, de televisão, do novo papa. Por outro lado também foi bom para mim ter ficado com uma visão dele bem. Penso que foi melhor não o ter visto nos cuidados intensivos a sofrer. Ao menos quando o vi ele já estava sereno, ainda quente. Acabei por ficar ali a falar com ele como se ele estivesse comigo. Ali é horrível, mas à medida que o tempo passa a saudade é cada vez maior, até que chega uma altura em que já conseguimos ver as coisas de outra forma.

Chorava com saudades dele?


Chorava imenso. De verão chorava imenso, principalmente nos meses de férias. Lembro-me que fui para Amesterdão e estava a gravar um programa de ópera no meio da rua. E de repente ao ver o programa que estava a ser gravado, senti uma saudade imensa do meu pai, que foi cantor lírico. Tudo me fazia lembrar o meu pai.

Não se sente revoltada por não ter estado presente quando o seu pai teve o AVC e quando ele foi internado nos cuidados intensivos?


Sim. Aconteceu-me muito isso. Não estava lá naqueles momentos, estive lá a seguir. É estranho, porque eu estava sempre longe, não estava em Lisboa. Parece que é quase de propósito. Claro que voltei e fui logo vê-lo, mas senti que devia ter estado presente.

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Como é que está a sua mãe [Antonieta]?


Está bem de saúde. É uma pessoa muito ativa, viaja sozinha para Itália, guia e é uma pessoa que se interessa por imensos assuntos, mas sente imenso a falta do meu pai. A minha mãe celebrava 51 anos de casada, mas foi uma vida, por alguém por quem esteve sempre apaixonada. Foi um grande amor. Na altura que o meu pai faleceu, a minha mãe disse-me: “Quando há um amor assim tão grande e uma pessoa desaparece, o outro devia desaparecer ao mesmo tempo”.

Como é no Natal?


O meu pai adorava o Natal e nós ficamos a pensar como ia ser. Acabamos por viver exatamente da mesma forma, como ele quereria, com as mesmas pessoas, mas prendas… Claro que foi difícil, ele não estava lá… aquela cadeira estava vazia. Mas é importante estarmos unidos.

Quando sente falta dele a quem telefona?


É com ele que eu falo. Continuo a falar com ele, falo para as fotografias dele. Quando estou no meio da rua falo com ele, penso que ele está ali.

“ÀS VEZES SENTIA-ME NA ‘PRATELEIRA'”

O seu pai e o seu irmão Hugo desempenharam cargos de direção na RTP. Isso incomodava-a de alguma forma?


Não me incomodava, mas sentia que tinha mais o dever de estar sempre atenta a tudo. Com eles, eu tinha que me sentir sempre à vontade com tudo o que fizessem porque era o meu pai e o meu irmão. O que eles necessitassem eu tinha que estar presente. Mas também senti que não era privilegiada, mas também não era prejudicada, por isso, cada vez que acontecia alguma coisa eu tinha que estar sempre lá, era o bombeiro de serviço (risos).

O Hugo Andrade, como diretor de programa da RTP, teve que tomar algumas medidas que também acabaram por implicar a Serenella. Essa situação melindrou a vossa relação?


Nunca. Nós tínhamos essa distância em termos familiares. Nós não falávamos dessas coisas. Todas as decisões do meu irmão eram tomadas da melhor forma e nunca me melindraram em nada, sempre apoiei tudo o que ele fez e também nunca me prejudicou. Não havia nenhuma razão para estragar a nossa relação de irmãos.

Nem quando existiram cortes salariais?


Aí não foi ele, foi a administração. Tive um enorme corte salarial, porque eu sou funcionária da RTP e o nosso ordenado é o ordenado normal de funcionário público. Porque pertencemos aos quadros da RTP, só temos um grande contrato se tivermos exclusividade. Para mim naquela altura foi muito complicado, mas não partiu dele, tanto que ele nem esteve na reunião. Partiu do presidente [Alberto da Ponte] e da administração e eu senti-me magoada. Fiquei triste, porque eu era tão dedicada… foi injusto.

Alguma vez se sentiu afastada, na “prateleira”?


Às vezes, sentia-me na “prateleira”. Aconteceu-me logo aos 37 anos. Achei que de vez em quando estava na “prateleira”. Eu é que arranjei forma de não estar. Abracei outros projetos.

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O seu pai tinha medo de morrer?


No último Natal, ele sentiu que não estava bem, tanto que ele disse-me que já não ia estar muito tempo aqui. Não lhe falava do assunto, mas acredito que sim.

2013, foi o ano em que o seu pai morreu. Foi o pior ano da sua vida?


Foi o pior ano da minha vida. Foi um ano horrível, em que o meu pai desapareceu. Foi um ano para apagar, foi tudo mau.

Resuma-me a sua vida num FLASH!


Sou uma mulher feliz, amo a minha profissão e amo minha família. Sentia-me feliz quase a cem por cento até à altura em que o meu pai desapareceu. A partir da altura em que o meu pai desapareceu deixei de ser tão feliz. Feliz, mas um pouco menos…

Fotos: Paulo Miguel Martins
Produção: Nuno Tiago e Iuri Pitta
Serenella Andrade vestida por El Corte Inglês

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