José Carlos Malato: “Não gostava de jogar à bola (…) e diziam que era maricas”

José Carlos Malato: “Não sou o meu género de homem”

O apresentador conta porque nunca pensou ter filhos e quem é a sua companhia para sempre. Malato como nunca ninguém o viu e ouviu.

Por Débora Godinh, Jornalista Flash // Foto: Carlos Ramos

Foi com o coração que José Carlos Malato, de 52 anos de idade, contou em exclusivo ao FLASH!, o que o marcou mais ao longo da sua vida. Numa entrevista longa, intimista e cheia de emoção, o apresentador de ‘A Minha Mãe Cozinha Melhor Que a Tua’, da RTP1, revelou que não está apaixonado, mas que lhe sabe bem “ouvir piropos na rua”. O alentejano revelou ainda quem será para sempre a sua companhia de vida, porque nunca quis ser pai e também porque nunca teve uma relação amorosa que desejasse tornar pública. Eis Malato de coração aberto, para falar sobre si próprio.

Hoje temos um Malato mais magro, mais elegante, mais senhor de si. Como se sente depois de ter perdido 40 quilos?
Quando se fala em perder, temos sempre a ideia de que perdemos qualquer coisa. Na verdade acho que foi a única vez que perdi e que ganhei. É um processo que na minha cabeça é o contrário. Eu perdi corpo, massa, medos e ganhei autoconfiança, estímulos e até ganhei espelhos novos em casa.

Era essencial para si emagrecer depois de ter tido o enfarte há quatro anos?
Era essencial ficar bem. Durante todo o processo anterior ao enfarte, estava realmente muito mal. Era o acumular de uma vida de 48 anos. Curiosamente estamos perto do Largo do Carmo, onde começou a democracia e onde terminaram 48 anos de fascismo. Eu era fascista com o meu corpo, desagradável com o meu corpo e com este suporte da alma que é afinal o nosso corpo. Tinha um polícia que me infligia uma série de coisas más.

E agora?
O enfarte há quatro anos fez-me o mesmo processo de perder e depois ganhar, eu pensei que tinha perdido tudo. É um grande susto e pensei que ia perder a vida, mas de facto eu ganhei uma vida nova e, sobretudo, ganhei a possibilidade de responder sim à vida. Eu sou místico em algumas coisas e de facto a vida deu-me um aviso. As pessoas ou melhoram a sua vida, que foi o meu caso, ou então acabam por continuam num processo de destruição que as vai levar a coisas muito más.

Foi difícil melhorar?
Percebi o recado, aceitei a condição e depois fiz tudo para melhorar. Nem sequer fiz muito esforço, fui melhorando num processo natural e hoje sinto-me muito bem e muito agradecido. Acho que mereço estar assim.

Quais os sentimentos que tinha quando teve o enfarte?
Desde pequeno que lido muito com essas questões. Tive uma vivência religiosa fortíssima, porque fui testemunha de Jeová desde sempre, até aos 18 anos. Tive ao longo desse tempo que lidar com a ideia da morte, a ideia da culpa, do pecado. E sobretudo, com ideia de que o corpo é a fonte de todos os males. Não é só o corpo, mas sim o desejo. Sou um bocadinho fatalista, Peixes de signo e a gostar muito de fado. Como cantou Amália, que se o sofrimento é pequeno eu aumento-lhe o tamanho.

Mas teve medo de morrer?
Eu não tinha medo da morte, tinha medo de morrer. Medo do acto. Depois do enfarte fiquei melhor, não senti nada de muito desagradável e acho que todas as pessoas acabam por ter uma certa preparação. Já fiz o meu estágio e agora estou descansado

Ainda tem pensamentos como uma pessoa obesa?
Já não! Eu tinha cabeça de gordo. A minha relação com a comida era uma forma de compensação. Era só eu e ela. Hoje tenho uma relação com a comida completamente diferente. Talvez porque eu agora me sacio mais facilmente. Não tem só a ver com a cabeça, mas sim com mais 140 quilos, viver num ambiente pré-diabético, que fazia com que eu tivesse sempre fome. Mas o Bypass gástrico, que foi por indicação médica, veio resolver isto. Hoje tenho uma relação saudável com a comida. Até dizia aos meus amigos: Será que me vou tornar magro?

E está?
Mas de facto eu não sou magro, tenho 97 quilos, mais do que o médico queria, mas deixei que o meu corpo encontrasse o equilíbrio. Aliás, se há palavra que agora me define é equilíbrio relativamente a tudo na vida. Claro que tenho os meus desequilíbrios também, porque todas as coisas que se foram fazendo ao longo da vida deixam marcas e, portanto, é possível que retoques as marcas na cara com botox ou laser, mas as feridas e as mazelas que tens no teu coração e na tua alma, não se apagam facilmente.

Sofreu de bullying na escola?
Quando era miúdo fui um bocadinho maltratado na escola, porque a minha mãe (Margarida) vestia-me calções azuis e meias até ao joelho. Eu também era um bocadinho ‘nerd’, não gostava de jogar à bola, brincava com as meninas e diziam que era maricas. Sofri muito essa pressão de não ser igual aos outros. Ainda hoje em dia, a diferença produz alguma desconfiança nos outros, mas há pessoas para quem essa diferença até é atrativa e que até tenha vontade de a explorar e de lhe dar as boas-vindas.

As crianças são impiedosas?
Os miúdos são muito cruéis e, talvez isso tenha contribuído para o facto de eu não ter muito contacto com crianças. Não quer dizer que não gosto de crianças, mas gosto mais de velhos. Sempre tive poucos amigos, relativamente aos outros amigos.

Sentia-se diferente na escola?
Sentia. Sempre me senti diferente. Eu não pensava como as outras pessoas, não gostava das mesmas coisas, tinha uma vida espiritual muito forte e desenvolvida. Não conseguia encontrar nos meus colegas de escola ninguém para falar. Até porque eu tinha uma religião e é difícil cumprir-se uma série de preceitos e requisitos que tinham a ver com a religião e exigências bíblicas, que eu encarava de forma muito séria. Não gostava de jogar à bola, não sabia quem ganhava, quem perdia.

Qual era o papel dos seus pais nessas situações? Queixava-se quando chegava a casa?
Não, aguentava. Eu tinha um bocado mania de ser “saco de boxe”. Tentava não preocupar. Era como se eu tivesse duas personalidades, uma era ligada ao sagrado e outra era o contrário: ligada ao profano, ao corpo, ao desejo. O que fiz durante toda a vida foi tentar fazer uma síntese do meu lado bom e daquilo que eu chamava, de uma forma maniqueísta, o meu lado mau. Era nesse equilíbrio desequilibrado que eu fui crescendo, mas sempre com a culpa de premeio e sempre pecando alguma coisa.

Hoje em dia ainda se culpas por alguma coisa?
Na verdade não resolvi muito bem a minha relação com Deus, porque vi muita coisa, vivi muita coisa, aprendi muita coisa, e quando vêm da infância são difíceis de organizar. Eu tinha culpas fortes e exageradas, culpava-me por tudo e por nada. Hoje em dia já não tanto, porque eu tinha o lado cristão da minha mãe e o lado comunista do meu pai. Nunca soube lidar com o dinheiro, achava sempre que não podia ter uma vida melhor que os outros. Eu era muito igualitário, no sentido comunista da palavra, achava que tinha que distribuir.

Agora pensa mais em si?
Sentia-me culpado sempre que pensava mais em mim do que nos outros. Hoje gosto de pensar em mim e de me ter bem e forte e só dessa maneira é que posso ajudar os outros.

Já disse em várias entrevistas que estava mais egoísta. O que é que isso quer dizer?
Tive muito tempo em que não me tinha em grande conta em algumas coisas, não me cuidava, não achava que fosse grande coisa, por um lado, mas por outro tinha coisas que me orgulhava. Sempre fui muito periférico de mim próprio. Tinha uma imagem construída de mim próprio que não era na verdade a que eu via reflectida no espelho.

No centro da sua vida sempre esteve a família. Qual é o papel deles?
Sempre foram o meu suporte. Tive relações com pessoas da família que me marcaram profundamente, como a minha tia, a minha avó, a minha mãe, a minha irmã. Sempre mulheres, porque tenho alguma dificuldade com a autoridade masculina.

A sua tia morreu com cancro. A sua mãe teve um cancro. A sua avó também morreu nessa altura. Teve medo de perder a sua mãe?
Sim muito, mas nunca pensei muito nisso. Nunca pensei que ela fosse morrer, achei que ela fosse superar sempre. Eu sabia que não era ainda a hora.

Já alguma vez pensou o que vai acontecer quando os seus pais morrerem?
O melhor que lhes posso desejar é que eles não vejam um dos filhos morrer.

Considera-se um bom filho?
Acho que sou um óptimo filho, um óptimo irmão, mas podia ter sido um melhor tio.

No que falhou?
É uma grande responsabilidade ser pai. Eu nunca fui, mas os meus sobrinhos ficaram sem pai aos 12 anos e desde sempre estive na educação deles. Até porque eu percebi desde muito cedo que não iria ter filhos porque não era essa a minha natureza, nem o meu destino. Nunca tive grandes ilusões relativamente a isso, apesar de ter querido ser pai em alguma altura da minha vida. Podia ter sido, mas não aconteceu.

Acha que a sua mãe tem pena de não ser avó de um filho seu?
Não. Ela sempre percebeu que eu não iria ter filhos.

E casar?
O casamento é um contrato. E também não gosto de ir a casamentos, nunca gostei. Sei que as coisas mudam. Não é uma coisa que pense. Mas posso ainda vir a casar, agora já posso.

Mas está apaixonado?
Por acaso não, estou apaixonado pelos meus cães e por mim. Estou a passar por um processo muito novo e muito narcísico, que é gostar de mim próprio, o que é uma coisa nova. Porque sempre tive uma auto-estima péssima. Porque consegui resgatar isso.

Sente-se mais bonito?
Sinto-me muito melhor. Sinto-me mais bonito, apesar de eu não ser o meu género de homem (risos).

Como é que lida com os piropos que ouve na rua?
Lido muito bem. As pessoas chegam ao pé de mim e dizem-me que estou bonito. Quando vou na rua assobiam-me das obras (risos). Agora a sério, é muito bom. Para quem nunca teve, é óptimo. Eu andei sempre à míngua de piropos, porque nunca ninguém me elogiava.

Sempre foi um homem de paixões. Tem saudades de se apaixonar?
Não tenho muitas saudades de me apaixonar, porque me apaixono regularmente, aliás não, apaixono-me com alguma regularidade. Ao contrário do que as pessoas pensam, de que sou um grande maluco, na verdade não sou, porque sempre tive relações longas no tempo. Agora sou uma espécie de táxi, agora estou livre (risos).

Costuma dar-se bem com as suas ex-paixões?
Sim, mas não logo. As pessoas têm que fazer o luto, passar um tempo sem se verem, sem se falarem. Aconteceu assim com todas as pessoas. Tive alguns erros de casting, mas normalmente é com o tempo… Há coisas que acho que não interessam, pessoas tóxicas, assim como os ex-amigos e algumas pessoas de quem me fui afastando ao longo da vida. Porque as pessoas têm caminhos diferentes…

Já viveu o seu grande amor?
Acho que já tive o grande amor da minha vida. Já tive até vários grandes amores. Acho que já não procuro, hoje em dia, um grande amor. Procuro uma grande companhia.

Cometeu muitos erros nas relações com esses grandes amores?
No amor e na guerra vale tudo. Numa guerra faz-se coisas horríveis, atrocidades que nunca faria noutro contexto e no amor é igual, mas mesmo assim, acho que se tivesse que ir a um tribunal teria algumas culpas, mas normalmente as coisas superam-se por si próprias.

E era um louco de amor?
No que se refere aos amores eu ficava sempre muito agradecido das pessoas gostarem de mim. Acabava por me apaixonar pelo amor que tinham por mim e não propriamente pelo que eu sentia. Às vezes não era um relacionamento, mas sim um agradecimento.

Tem medo de ficar sozinho?
Não, acho que vou ficar sempre com a minha irmã (Sandra). De todas as pessoas na vida é a pessoa de quem mais gosto. Sempre foi e é cada vez mais um grande farol e uma grande companhia na vida. Ela é de facto a minha grande companhia. Por isso, como eu sou um bocado preguiçoso ela teve três filhos por mim.

Porque é que nunca apresentou ninguém publicamente?
A ideia da figura pública ser do público e ter obrigação de se tornar público, para mim não existe. As fronteiras da minha privacidade ficam no meu quarto. Portanto as pessoas que entram no meu quarto, a menos que elas queiram que isso seja público, ficam resguardadas. Por acaso nunca ninguém me disse: “por favor, apresenta-me”.

E se dissessem?
Se dissessem era capaz de fazer isso. Mas até hoje nunca aconteceu.

Mas apresenta à sua família. Pais, irmã, sobrinhos?
As pessoas que estão comigo fazem parte da família. Todas as pessoas foram bem aceites por toda a gente, tivemos sempre uma relação muito cordial e até afetiva.

Resuma-me a sua vida “num Flash!”.
Resumiria numa viagem de barco. Acho que a minha vida é de andar num mar calmo, andar nas tempestades, de dobrar cabos da boa esperança e das tormentas, descobrir índias, ter afundado algumas vezes, como um Titanic que bateu num iceberg, mas sobretudo chegar a bom porto. É o adeus, é também ficar no cais. É essa ligação que tem muito a ver com o fado e com Portugal, com Camões e com os marinheiros. A minha vida, se fosse resumida num FLASH!, seria ‘Os Lusíadas’: até tem a ‘Ilha dos Amores’!

IN, Flash

Uma entrevista EXCLUSIVA do grupo Cofina ao apresentador da RTP

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