Ele Há Coisas: “RTP – Uma casa a arder”

A RTP tem uma história de 60 anos e, quase sempre, viveu na turbulência das várias administrações e direcções.

No dia 7 de março fará 60 anos, ainda longe da idade da reforma e, quer queiramos quer não, faz parte da nossa vida. É uma marca de Portugal.

Do passado já muitas vezes falei, do presente também mas, no ano em que se vai celebrar os 60 nos da estação pública de televisão há que fazer um balanço da actual direcção e administração e, é isso mesmo que irei fazer de seguida.

Passados mais de 2 anos da tomada de posse da actual administração, liderada por Gonçalo Reis e Nuno Artur Silva, e das actuais direcções, que tem Daniel Deusdado à frente da programação da RTP1 e Paulo Dentinho no comando da informação as coisas não têm corrido de feição, aliás, estão muito longe disso.

O ambiente na informação tem sido de cortar à faca.

Os portugueses viram sair o mais preparado e completo jornalista português sobre os assuntos parlamentares e política europeia: 2016 foi a saída do jornalista António Esteves Martins da RTP, onde esteve de corpo e alma durante 33 anos. Pregaram-lhe uma daquelas rasteiras sujas e cheia de maldade e, como diz o ditado, “quem não se sente, não é filho de boa gente“, e António Esteves Martins sentiu-se… sentiu-se enxovalhado profissionalmente por Paulo Dentinho, pelo antigo Provedor do Telespectador Jaime Fernandes e pelo jornalista Vitor Gonçalves. A cumplicidade destes 3 resultou na saída do, agora, ex-correspondente da estação pública na Bélgica.

Resumindo: António Esteves Martins sai da RTP e Vitor Gonçalves é promovido como responsável da informação da RTP1.

Ainda na informação, têm-se assistido à introdução de novos repórteres para os directos e ao afastamento dos séniores, mestres na arte de improvisar. Resumindo: os directos perdem com os novatos que, por mais que tentem, acabam sempre por se atrapalharem no decorrer da emissão. Enquanto isso, a experiência de jornalistas como, por exemplo, Margarida Neves de Sousa, Patrícia Lucas, Rita Marrafa de Carvalho fica, cada vez mais, na secretária do estúdio da RTP. Acho bem que se introduza sangue novo mas há que saber fazê-lo e, mais uma vez, Paulo Dentinho não o soube fazer… e só de pensar na quantidade de directores e Adjuntos que a informação da RTP tem actualmente, não consigo perceber porque razão a máquina não funcione no seu melhor.

A RTP3 é o pior canal de notícias em Portugal. Já renasceu 3 vezes e nem assim conseguiu captar a preferência dos portugueses. Já foi RTPN, RTP Informação e agora é RTP3. Nem as contratações milionárias que foram buscar à SIC a salvaram ou tornaram mais  competitiva. Ana Lourenço não levou mais audiência para o horário nobre, e nem a liderança que António José Teixeira tinha na SIC Notícias foi transportada para o canal público de informação.

Paulo Dentinho é um homem que vê as coisas de forma mais cinzenta, mais conservadora, mais limitada, o que faz com que a informação da RTP se tenha tornado menos apelativa e mais enfadonha, por mais que os profissionais se esforcem as coisas não fluem como outrora. Não existe inovação. Renovou-se o estúdio de informação e qual foi a grande inovação? Perdeu-se um estúdio cheio de vida e de alma, em prol de um estúdio mais solitário e sem vida nem alma.

Continuamos a ver uma Fátima Campos Ferreira mal aproveitada, uma Alberta Marques Fernandes escondida no canal de notícias e programas do arco da velha no ar, sem interesse nenhum e, por isso mesmo, segundo dados da Gfk, chegam a registar zero telespectadores, como tem registado o programa que Daniel Deusdado apresenta na RTP3. Mas mesmo com todos os maus resultados à vista, Paulo Dentinho continua a assobiar para o lado como se tudo estivesse bem na sua liderança.

Na liderança da informação faz falta um profissional com a visão do José Manuel Portugal, afastado pelo PSD das funções de Director de Informação para que Paulo Dentinho ocupasse o seu lugar. Tem sido assim, quando as coisas estão a dar resultado, vem o governo e provoca a dança das cadeiras.

Com a liderança de Paulo Dentinho deixou de haver inovação na forma de como fazer jornalismo em Portugal. A RTP perde , cada vez mais, a alcunha de “melhor escola de jornalismo”.

Na “Grande Entrevista“, o jornalista Vitor Gonçalves torna-se tendencioso quando os convidados são políticos, dependendo da cor política que esteja sentado à sua frente.

Salva-se o “Sexta às 9” que tem tido mérito próprio de fazer jornalismo de investigação mas, até quando estará sem as amarras? Volte-se a investigar os políticos, onde há muito pano para tantas mangas … vamos lá Sandra Felgueiras!

Com Paulo Dentinho, a direcção de informação é a maior de sempre na RTP. Nunca houve tantos directores e Adjuntos de direcção como agora. Se as outras direcções conseguiram trabalhar e até fazer melhor com menos directores e adjuntos, porque razão a actual direcção precisa de tanta gente a mandar para no final das contas a máquina funcionar cada vez pior??!!

Na programação, Daniel Deusdado e Nuno Artur Silva não têm feito melhor. Sob a batuta de “eu quero, posso e mando“, têm tornado a RTP1 num canal maribundo, sem graça e, cada vez mais, longe dos portugueses.

Gastam fortunas em produzir séries a fio, muitas com tachos à mistura, que quase ninguém vê! São autênticos flops de audiência. Não poderia ser este dinheiro melhor aproveitado? Apostar em novos formatos? Tanto criticaram as novelas que agora até pagaram uma com mais de 300 episódios para a hora de almoço que não consegue sequer, vencer as repetições da SIC e da TVI. Bizarro!

Os amigos de Nuno Artur Silva continuam a inundar o canal público, como se a RTP1 fosse o segundo “Canal Q” do administrador da estação pública. Por vezes, não se consegue perceber se estamos a ver a RTP1 ou se o Canal Q.

Como pode Nuno Artur Silva ser administrador na RTP e ao mesmo tempo ser o dono do Canal Q ???? O governo sabe mas também ele assobia para o lado, afinal Nuno Artur Silva sempre mostrou a sua cor política, rosa, por sinal.

Na RTP sempre houve tachos e tachinhos, tal como nas Câmaras Municipais e demais serviços públicos, é certo mas, actualmente não há tachos na estação pública, há sim tachões.

Ainda esta semana terminou o “The Big Picture” com o Pedro Fernandes e, na mesma semana, estreia um novo concurso com apresentação de , imagine-se, Pedro Fernandes! Este é o tipo de coisas que mostram bem o rumo errado que a RTP está a trilhar pela mãos de Deusdado e Nuno Artur Silva… nada contra o Pedro Fernandes que é um grande profissional mas esta ideia de ele se substituir a si próprio não deixa de ser, no mínimo, caricato e incompreensível… a culpa não é dele.

A Praça” segue sem rumo, sem ritmo, sem alma, talvez por isso mesmo perdeu a “Alegria” no nome …. Depois temos um Jorge Gabriel cada vez mais snob, irritante e com a mania de que faz serviço público de televisão melhor que ninguém… salve-se a Sónia Araújo que,.com o passar dos anos, tem tentado ser sempre quem foi: simples, simpática, profissional e discreta. No entanto, ainda não entendo esta vingança de Daniel Deusdado, o de ressuscitar a Praça da Alegria, pois se alguém perdeu no meio disto tudo foram os telespectadores, mais ninguém.

Júlio Isidro continua a ser esquecido na RTP1… Ele que é a enciclopédia da RTP e ainda com tanto  para dar aos telespectadores.

José Pedro Vasconcelos e Tânia Ribas de Oliveira, uma dupla criada pelo ex-director da RTP Hugo Andrade e que se tornou, a meu ver, na melhor dupla de apresentadores da televisão portuguesa. Se a Tânia Ribas de Oliveira já pouco ou nada tinha a provar, já José Pedro Vasconcelos tinha uma prova de fogo para superar e, para espanto de muitos, superou-a com distinção e mérito próprio. Soube agarrar  a grande oportunidade que lhe deram e hoje em dia é um dos rostos mais queridos da nossa TV. Se o regresso da “Praça” foi um erro, a manutenção do “Agora Nós” foi uma decisão acertada de Daniel Deusdado, embora tivesse sido desnecessário a troca de horário. Porque não a “Praça” nas tardes?

A RTP1 continua a somar resultados negativos no que diz respeito às audiências, tem perdido muito público nestes 2 últimos anos. A dívida da RTP estava controla mas, nestes dois últimos anos voltou a disparar e a saúde financeira da estação pública volta a estar em alerta vermelho.

As poucas alegrias da RTP1, que ainda consegue juntar os portugueses à volta da televisão como antigamente, são duas decisões do anterior director Hugo Andrade: o “The Voice Portugal” e o “Got Talent Portugal“. Lá diz o ditado: “Com as botas do meu pai também eu sou um homenzinho.”

A RTP tem muitas coisas boas que ficarão para sempre na nossa memória, na memória da televisão portuguesa e na memória dos nossos avós, pais e filhos. Mas, actualmente, e infelizmente, a RTP é uma casa a arder, com as péssimas ideias de Daniel Deusdado, Nuno Artur Silva, Paulo Dentinho e Gonçalo Reis.

Esta não é, definitivamente, a RTP do Raúl Solnado, do Fialho Gouveia, da Alice Cruz, da Isabel Bahia, do Raúl Durão, da Isabel Wolmar, entre tantos outros … Não foi para isto que tanto trabalharam, para se chegar aos dias de hoje e ver uma RTP  cada vez mais distante dos portugueses… triste sina esta. A RTP não merecia nem os seus sérios profissionais.

Faz falta pessoas sérias à frente dos destinos da televisão que é de todos os portugueses que mensalmente pagam a Taxa Audiovisual e esperam mais e melhor da RTP.

Rui Cohen, Cronista da VOX POP TV

 

 

 

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