Miguel Esteves Cardoso: “Na RTP arranjaram maneira de mostrar o golo de Éder mais de 70 vezes.”

Nova Crónica de Miguel Esteves Cardoso

“O dia da marmota”

“Será saboroso entrar no próximo Euro como actuais campeões, a ver os outros países doidos para tirar-nos a taça das mãos bem agarradas.

Na RTP arranjaram maneira de mostrar o golo de Éder mais de 70 vezes. Deveria fartar. Mas eis a estranheza da coisa: dava sempre gosto ver.

A um-quarto para a meia-noite de ontem a RTP voltou a transmitir integralmente o jogo contra a França.

Vai saber-me bem ver o jogo sabendo como vai acabar. Havia de ser sempre assim. Portugal jogava e era tudo filmado mas, caso perdesse, mostrava-se apenas um breve resumo, recheado das boas jogadas que tivesse feito. Quando empatasse ou ganhasse transmitia-se na íntegra, para podermos estar descansados.

Ver a final do Euro 2016 dos senhores comendadores de Portugal contra os meros futebolistas da França vai dar-nos a oportunidade de apreciar o jogo sem sermos cegados pela nossa ansiedade. Veremos que a selecção jogou muito bem – não tanto para fazer um brilharete mas para organizar-se para fazer aquilo que precisava de ser feito para o jogo poder ser ganho. Jogar pelo seguro até é bonito de se ver quando já se sabe que o resultado é sermos os campeões da Europa.

Também é uma bela maneira de entrar no Euro 2020 sem aquela chachada dos jogos para o apuramento ou a despesa ingrata de organizá-lo em território nacional. Será saboroso entrar no próximo Euro como actuais campeões, a ver os outros países doidos para tirar-nos a taça das mãos bem agarradas.

Portugal foi uma selecção a sério, a jogar irmãmente para o bem comum, seguindo teimosamente um plano ousado mas inteligentíssimo de Fernando Santos. Todos deram tudo o que tinham para dar, muito para além das obrigações e responsabilidades. É por isso injusto falar de um só jogador mas, no caso de Rui Patrício, é impossível não agradecê-lo pessoalmente, em nome de todos os portugueses, por ter sido, em última instância após última instância, o nosso salvador.

É mais agradável falar nos golos que marcámos, por ser o resultado de esforços positivos. Mas é necessário e justo que se coloquem no mesmo plano triunfal os golos que foram salvos pelo nosso guarda-redes, Rui Patrício. Esses golos não aparecem no resultado final mas, para quem viu os jogos, nada custa (e muito alivia) contabilizá-los. E revê-los, celebrando-os por terem sido impedidos – alguns ninguém sabe como – de se tornarem golos. Dos outros, dos vencidos.”

Por: Miguel Esteves Cardoso (Público)

Anúncios

Deixa o teu comentário

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s