Rita Ferro Rodrigues criticou Teresa Guilherme

Rita Fero Rodrigues escreveu um texto, na plataforma Capazes, onde ataca Teresa Guilherme. Em causa está a última gala do reality show Love on Top. A mãe de Andreia Silva foi ao estúdio tentar tirar a jovem do programa, alegando que a filha é vítima de “violência psicológica” por parte de outro concorrente. Contudo Teresa Guilherme desvalorizou esta denúncia.

“Esta semana estive desligada do mundo, a aproveitar uma semana de férias na companhia de um grupo óptimo de amigas, todas feministas, entre elas, duas fundadoras desta plataforma. Fizemos o exercício obrigatório de enfiar as cabeças no mar, os rabos na areia, as bocas nos Gins Tónicos e os ouvidos nas gargalhadas e confissões umas das outras. Quase sem acesso às redes sociais, era fundamental descansar. E foi o que aconteceu.

O exercício de deixar o “carro Capazes” em piloto automático não é fácil (não foi, não é, e nunca será) mas é crucial que possa acontecer: a responsabilidade de exercício da cidadania feminista é de todas nós e não apenas do núcleo fundador deste projecto. Essa autonomia é determinante.

Durante a nossa ausência deu-se o “Caso Taróloga” muito debatido e viralizado, graças ao empenho de um grupo de Capazes que em Lisboa, que mostrava de forma combativa indignação pela forma irresponsável e tão revoltante como uma denúncia de violência doméstica continuada foi tratada num programa de televisão em directo, visto por milhares de pessoas.

Mal aterrámos, outra “pérola”: num realitty show de grande audiência, uma concorrente sofre de violência emocional e maus tratos perpetrados por um homem (?) perante todo um país. A mãe tenta tirá-la desta exposição degradante enquanto a apresentadora do programa desencoraja a mãe e, em directo, desvaloriza o quadro de evidente violência, classificando-o perante milhares de telespectadores como sendo uma “situação normal”.  Infelizmente, a apresentadora em causa tem razão: é uma situação terrivelmente normal no nosso país o que não quer dizer que seja aceitável: não é. E não pode ser banalizada e desculpabilizada num programa de grande audiência.

Estes dois casos mais recentes estão, infelizmente, longe de serem os únicos. A violência exercida sobre as mulheres é permanentemente desvalorizada, tratada com ignorância e preconceito machista por parte dos media em geral. Basta olhar para a maioria dos títulos de jornais no tratamento de notícias de mulheres que morrem assassinadas pelos companheiros: há uma romantização obscena veiculada através das palavras, dou como exemplos: “Matou por amor “, “Não aguentou o ciúme”, “Crime passional” (Really? Passional? De paixão? Ainda usamos esse termo?)

Evidentemente há outro lado do disco de vinil: o papel dos media (sobretudo da televisão), nos últimos anos, tem sido decisivo na consciencialização das questões da violência de género. As novelas, os programas considerados “menores” nos horários de “Day Time”  são frequentemente tempo de antena destes temas, os programas de informação também e, ressalva importante, quando os profissionais que comunicam para o grande público estão preparados e formados para lidar com estes temas o benefício pode ser gigantesco para toda a sociedade. Já quando não sabem o que estão a dizer, quando agem de forma irresponsável e machista, quando reproduzem discursos de submissão e violência de género, quando não têm golpe de asa para desconstruir uma narrativa misógina e não têm ninguém na régie a pensar por eles  e que o consiga fazer competentemente e no imediato do directo… O resultado pode ser trágico.

É preciso por isso, reflectir urgente e profundamente sobre a forma como se comunica a violência de género (e já agora muitas outras desigualdades) nos media. É preciso convocar para essa discussão jornalistas, editores, apresentadores, chefes de redação, directores de conteúdos. Ninguém está a salvo. É preciso formar quem informa e comunica para que o faça de forma competente e positiva. É preciso também valorizar quem o faz de forma continuada, informada  e competente há muitos anos. Também as há. E por norma são vistas como “feministas histéricas e chatas, obcecadas” e há até casos em que estas profissionais são, por causa desta militância deontológica (porque é de deontologia também que se trata), ostracizadas e afastadas, quando podiam estar a formar outras/os profissionais seus pares e com isso beneficiarmos todas.

Estamos num tempo em que (e ainda bem) a violência de género e as discriminações já não passam ao lado das pessoas. Há uma fiscalização militante, constante atenta e saudável através do trabalho de associações feministas e com a alavanca preciosa das redes sociais.

Os media têm de procurar formação urgente para os seus profissionais e acompanhar os novos tempos. Já.”

In, Maria Capaz

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