EXCLUSICO: Entrevista na Rede – Actor Luís Aleluia

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ARQUIVO VOXPOPTV (2014)

Reveja a entrevista ao Actor Luís Aleluia

  Miguel: A personagem “Menino Tonecas” ainda o acompanha no seu dia-a-dia?

Luís Aleluia: Ainda! E mesmo que o quisesse esquecer seria dificil, há sempre quem se cruze comigo na rua e me lembre o “menino Tonecas” pelo impacte que o personagem teve também na sua vida.

  Miguel: Foi a personagem que mais o marcou até hoje na sua carreira de actor?

Luís Aleluia: Em termos mediáticos, sim. Mas como actor houve outros personagens que passaram pela minha “pele” que me marcaram mais. Foram mais desafiantes, intensos e que me fizeram crescer técnica e profissionalmente.

  Miguel: Acha que foi a RTP que “matou” “As Lições do Tonecas”, uma vez que a dada altura, decidiu emitir os episódios mais tarde?

Luís Aleluia: Ninguém “matou” as “As Lições do Tonecas” e a prova disso é que continuamos a falar da série. Nem o Rui me faria a pergunta se não visse interesse por parte dos seus leitores. Quanto ao horário temos sempre que ter em conta que os critérios da programação televisiva pressupõem estratégias de mercado. São opções tomadas depois de avaliadas várias opiniões. A regra é esta.

 

 Miguel: Acha que fazia sentido “As Lições do Tonecas” regressarem à televisão?

Luís Aleluia: Não em novos programas. Mas sei que “chovem” pedidos para a RTP Memória passar alguns episódios. E, se assim fosse, tenho a certeza que seria mais uma aposta ganha. Como a série é bastante apreciada pelo povo e os intelectuais deste País são tão poucos, o programa haveria de continuar a ter grandes audiências.

 Miguel: Como foi trabalhar durante tanto tempo com o já falecido, Morais e Castro?

Luís Aleluia: O actor Morais e Castro, para além de ser um excelente profissional e grande colega teve sempre para comigo um sentido de protecção e de carinho. Dizia ele que eu era um filho adotivo. Foi um privilégio poder cruzar-me com uma pessoa tão generosa e disponível para todos os que o procuravam e crescer com ele durante o tempo em que trabalhamos juntos. Aproveito para enaltecer, mais uma vez, o excelente trabalho que fez na Série “As Lições do Tonecas”. É justo dizer que o trabalho de actor não é meu, mas do Morais e Castro. Sem o bom desempenho dele, jamais o “Tonecas” se imporia pela contracena.

 

 Miguel: O Luís entregou, juntamente com o Guilherme Leite, um projecto à RTP que nunca teve luz verde mas esteve mesmo para avançar. O que correu mal para não se concretizar?

Luís Aleluia: Nós não entregámos um projecto mas mais de uma dúzia deles. A qual deles se refere?! É aquele que ficcionava a vida de Eusébio e celebrava os 100 da implantação da Répública? Esse foi porque um dos “reis” da RTP, à época, preferiu pôr outros bobos na côrte.

 

 Miguel: Qual a razão de ter deixado de aparecer na “Praça da Alegria”?
Luís Aleluia: Foram Mistérios e alguns critérios e uns poucos que não foram sérios!

 Miguel: Está zangado ou magoado com a RTP?

Luís Aleluia: Só uma vez é que fiquei magoado com a televisão, foi um dia em que não a segurei bem e cai-me em cima de um pé. Quanto à RTP, não queira o Rui saber o trabalho que dá a gente zangar-se com o que é nosso.

 

  Miguel: Participou na telenovela da RTP1, “Na Paz dos Anjos”,onde interpretou a personagem de nome “Fernandinho”. Na TVI esteve em “A Filha do Mar”. Se o convidassem novamente para fazer parte de um elenco de uma telenovela, o Luís aceitava?

Luís Aleluia: Teria sempre que avaliar as propostas e conciliá-las com os meus outros trabalhos. Alguns projectos de televisão, como algumas séries e telenovelas, exigem uma disponibilidade que, algumas vezes, não é conciliável com outros compromissos profissionais.

 Miguel: A TVI já o voltou a convidar para participar numa das suas produções?

Luís Aleluia: NIM.. Como diria o meu querido Raúl Solnado! Quer dizer já houve intenção mas por este ou por aquele motivo não se concretizou.

 Miguel: E a RTP1 e a SIC?

Luís Aleluia: Iden, iden – “Raspas,” “raspas”… Para a RTP, nos últimos 5 anos fiz um episódio da série “Os Compadres” e uma participação num sketch no Programa “Portugal no Coração”! O que não quer dizer que tenha que esperar outro tanto para coisa mais substancial…

 

 Miguel: Devido ao sucesso de “As Lições do Tonecas”, a RTP decidiu avançar com “O Recreio do Tonecas”, gostou de fazer este programa infantil?

Luís Aleluia: Fazer diáriamente, durante três meses, em directo um programa infanto-juvenil, foi uma grande experiência profissional. Agradeço a oportunidade à RTP e à equipa da “Valentim de Carvalho” com quem tive o privilégio de trabalhar.

 

 Miguel: O cd do Tonecas foi o êxito que espera?

Luís Aleluia: Produzimos dois: “A Tabuada do Tonecas” com música de Jorge Quintela e o apoio do Coro de Santo Amaro de Oeiras. Um disco didáctico e muito bem produzido. e “As Canções do Tonecas”, letras de Teresa Correia e do meu amigo Toy que,  também o orquestrou e produziu. este último teve mais sucesso por seguir uma linha mais popular.

 Miguel: Não sei se o Luís sabe mas, “As Lições do Tonecas” é um produto de televisão que está considerado como o de maior impacte da indústria da televisão portuguesa na década de 90 pelos resultados alcançados, tendo, inclusive servido de base a diversos estudos sociológios e ensaios, no campo universitário, alguns publicados. Foi um fenómeno avassalador, não concorda. Esperava todo o sucesso que a série atingiu??

Luís Aleluia: A série excedeu as expectativas mais optimistas. Tornou-se um fenómeno mediático pela popularidade que atingiu. O produto era consumido ao serão por toda a família, dos mais novos aos mais velhos era transversal nas classes sociais, culturais e económicas. Causou polémicas, discussões acesas e críticas diversas (algumas publicadas; umas contra e outras a favor), dividiu opiniões. Tornou-se assim um bom ponto de partida para os estudos e análises sociológicas não só académicas mas como comerciais.

 

 Miguel: “As Lições do Tonecas”, beneficiando das retransmissões pela RTP Madeira, RTP Açores, RTP Internacional e RTP África, chegou a atingir a cifra de 25 milhões de espectadores. O Luís sabia disto? Que comentário lhe merece?
 
Luís Aleluia: Foi graças a RTP Internacional e à RTP África que iniciava as suas emissões a RTP conseguiu atingir audiências até aí nunca alcançadas. Foram milhões de espectadores espalhados pelos Mundo. Sabe que em S. Paulo e no Rio de Janeiro havia quem não perdesse o programa tal como nós, aqui fazíamos com a série brasileira “Sai de Baixo?”! De todo o lado me chegaram cartas, da Austrália à África do Sul, do Canadá à Venuzuela. E continuam a chegar à RTP, a pedir que reponham o Programa. Como actor sinto-me privilegiado pela sorte de ter conhecido o “Menino Tonecas” e através dele divertir esses milhões de pesssoas e pela Língua portuguesa.

 Miguel: O Luís Aleluia, participou em séries com assinatura de Moitas Flores, todas elas exibidas na RTP1. Participou em “O Conde de Abranhos”, “Alves dos Reis” e “O Processo dos Távoras”. Qual destas 3 gostou mais de fazer?

Luís Aleluia: Profissionalmente “O Conde de Abranhos”. Mas a personagem de “Alves dos Reis” tocou-me particularmente porque entrei na série para substituir o actor Carlos César, que tinha falecido recentemente. Em sua homenagem, o Moita Flores, que é um homem de grande sensibilidade, chamou-me para interpretar a personagem que lhe havia sido distribuida. Escoçlheu-me porque eu sou um dos seus discípulos, “nado e criado” no Teatro de Animação de Setúbal. Obrigado Carlos César, obrigado Moita Flores.

 

 Miguel: Qual o seu papel na Casa do Artista?

Luís Aleluia: É uma entrega voluntária que me preenche e estimula. Como sócio e membro da Direcção, cabe-me zelar pelo seu bom nome e incentivar o crescimento. A Casa do Artista é uma Instituição que não diz respeito apenas aos que trabalham nas Artes Performativas mas antes a toda a sociedade. É uma Instituição de interesse público. Qualquer um pode, e deve, fazer-se sócio da Apoiarte e assim garantir que os SEUS Artistas têm  defendidos os seus interesses, o seu conforto e a sua dignidade em alturas de maior carência e desprotecção.

 Miguel: A Casa do Artista foi uma ideia brilhante, não foi?

Luís Aleluia: Por diversas e boas razões a Casa do Artista é apontada como um exemplo por instituições idóneas e diversas individualidades. Isso deixa-nos orgulhosos e gratos: aos que no passado lutaram pela sua edialização e construção e aos que continuam a lutar, todos os dias, para que a Casa do Artista continue de pé e como uma referência na protecção, no bem-estar e no acolhimento dos mais precisam.

 

 Miguel: “Medidas Grandes”, como vai a sua loja de roupa? Também sente a crise?

Luís Aleluia: Com a crise os nossos clientes emagreceram, uns pelas dietas forçadas outras pela retenção dos subsídios. De que me vale vender “medidas Grandes” num País onde o Governo quer à força que a classe média seja magrinha?

 Miguel: As personagens “Irmãos Capela”, “Donatina” e “Meias Solas” foram criadas por si?

Luís Aleluia: E pelo Guilherme Leite. Que é um perfeito “cabecinha pensadora”.  E muito injustiçado, a meu vêr. São da sua autoria muitos personagens e formatos de programas televisivos de grande sucesso. E tem mais de mil naquela cabeça! Só neste País é que a criatividade não é estimulada, pelo contrário chega a ser amordaçada por interferir com interesses corporativos que todos sabem existir mas que poucos têm a coragem de denunciar.

 

 Miguel: O Luís também trabalhou com Filipe La Féria. É assim tão dificil trabalhar com o Filipe, ou é só mais a fama do que o proveito?

Luís Aleluia: No meu caso foi sempre mais proveito do que fama! Garanto que é um privilégio poder trabalhar com o Filipe Lá Féria. Ele é um criativo, um artista que ama o Teatro e se empenha pelo profundo respeito que tem pelo público e pelos artístas que dirige. O seu trabalho tem sido elogiado e destacado por todos. A sua vaidade é ter criado grandes destaques e oportunidades artísticas a muitos  profissionais e a sua maior glória é saber que alguns que se iniciaram consigo, brilham hoje em palcos internacionais. Pena nossa, haver só um!

  Miguel: O actor Carlos César foi fundamental para a sua carreira de actor, não foi?

Luís Aleluia: Foi fundamental. Devo-lhe a confiança  que depositou em mim. Tento pagar-lhe todos as vezes que trabalho, empenhando-me profissionalante nos trabalhos que realizo.

 Miguel: Como era gravar com a actriz Luísa Barbosa, a avó do Tonecas?

Luís Aleluia: A Luísa era uma mulher positiva e sempre bem disposta. Tinha um humor crítico e mordaz. Foi quem me trouxe para Lisboa e me apresentou ao César de Oliveira e Rogério Barcinha, autores da revista à portuguesa “Há mais são verde!” com Camilo de de Oliveira e Ana Zanatti, Camacho Costa e Anita Guerreiro a encabeçar o elenco. Isto em 1983. Fará 30 anos para o ano que vem.

 Miguel: Como vai a sua empresa, “A Cartaz”, que criou em 1991, juntamente com Carlos Alfaiate?

Luís Aleluia: Bem e recomenda-se. Temos em carteira quatro espectáculos: duas comédias “As lições do Tonecas” e “Saídos da Caixa” e duas revistas à portuguesa ” Ó Zé bate o pé!” e “Isto só visto!”. Para além do agenciamento artístico e da contratação de serviços.

 Miguel: Da televisão, passando pelo cinema e terminando no teatro, qual o realiza mais como actor?

Luís Aleluia: São linguagens diferentes. Todas as artes multidisciplinares e com as suas especificidades. É vulgar os actores optarem pelo Teatro pela maior autonomia e controlo do produto final. A Televisão e o Cinema trabalham com as imagens do actor que podem ser manipuladas e têm expressão própria ao contrário do Teatro que confere maior autenticidade pela presença fisica e o envolvimento emotivo com o espectador.

 Miguel: A sua relação com Guilherme Leite continua de boa saúde? Mantêm contacto?

Luís Aleluia: E porque não havia de manter? Devo ao Guilherme muito do que aprendi, sobretudo nos métodos de escrita para televisão, na criação de personagens, para além de uma certa cumplicidade profissional que sempre existiu. O facto de andarmos agora por caminhos profissionais diferentes, só nos enriquece pessoalmente. Quando nos encontarmos cada um trará para o trabalho experiências diferentes. Quando à nossa amizade, nunca esteve doente e se algum dia estiver, nada que uma boa aguardente velha e um abraço forte não resolva.

 Miguel: O Luís reviu-se na série da RTP1? “Conta-me Como Foi …”? Concorda que a série conseguiu o seu objectivo, o de retratar fielmente os anos 60 e 70 em Portugal?

Luís Aleluia: Segui com bastante entusiasmo a série e revi-me em alguns momentos. “Conta-me como foi?!” e um é daqueles trabalhos que tenho “inveja” de não poder fazer constar no meu currículo. Uma história bem contada, um elenco de luxo, uma produção exemplar. Só não gostei foi de vêr os nossos autores reduzidos à condição de tradutores e adaptadores de ideias estrangeiras. Ninguém faz contas aos milhões de Euros em Royalties que saiem deste País.

 Miguel: Se o Luís Aleluia pudesse, que produto televisivo colocava no ar na televisão portuguesa?

Luís Aleluia: Teatro português, e já agora em português e feito por portugueses! Outro programa que poria no ar o “Contra informação”. A crítica social e política dita por bonecos para brincar com os “bonecos” da política e do social. Além de divertir e “vingar” os que não têm voz, evitava a exposição pública de alguns artistas que, para terem graça, fazem-se passar por bonecos.

 Miguel: Tem saudades de fazer televisão?

Luís Aleluia: Bastantes.

 Miguel: Como vê, o Luís, a política portuguesa?

Luís Aleluia: Que política?… A Política faz-se com Políticos e nós não os temos. Faltam-lhes ideias, carísma, pragmatismo. Sobretudo, falta quem nos sirva, mais por devoção que por interesses partidários geralmente subjugados a obscuros interesses.

 

 Miguel: O Luís tem partido político?

Luís Aleluia: Tenho.

 

 Miguel: Pode-se saber qual?

Luís Aleluia: O meu! Partilho da opinião de Agostinho da Silva: o homem livre deve ter o seu próprio Partido, todos os outros são correntes de opinião fundamentadas em conceitos pessoais  de opiniões de não são dele.

 

 Miguel: Acredita no governo de Passos Coelho que, num um ano, já colecciona muitas trapalhadas?

Luís Aleluia: Apesar de tudo creio que as raposas tem sido mais prejudiciais que os coelhos.. E olhe que últimamente temos assistido a cada assalto ao galinheiro que só visto.

 

 Miguel: Acha que os portugueses vão continuar calados e sem reagir, sabendo que só em 2015 , ou mais tarde, é que vão voltar a receber os seus subsídios de férias e de Natal?

Luís Aleluia: O truque é esse: é deixá-los famintos e à míngua para não terem reacção nem força para resmungar!

 Miguel: Que mensagem, o Luís Aleluia, pode deixar a todos os portugueses, neste momento de crise, que o País continua mergulhado?

Luís Aleluia: Os tempos dificeis que atravessamos só interessa aos letrista de fado, com o devido respeito, pois se o povo entender que a miséria é o seu fado e o Fado é este, que o cante e seja feliz. Por contrário, se se julga capaz de criar um canto novo, que lute e se motive e rompa de vez com saudade mais esta “estranha de forma de vida” de aceitar tudo como um fadário.

 

 Miguel: O Luís é um homem feliz?Luís Aleluia: Nenhum homem é feliz na sua plenitude; a vida é como a lotaria ” Há horas felizes!” e eu, graças a Deus, também tenho tido as minhas.

Ficha Técnica:
Rui Cohen – Entrevista
André de Sousa – Revisão
Roger Carlos – Grafismo
 VOX POP TV – 2014

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